09 de julho de 2017 - 07:38

Obras inéditas de Ricardo Guilherme Dicke estão abandonadas

Grandes nomes da ficção colocaram Dicke entre os gigantes da literatura brasileira – mas, sem recursos, suas obras inéditas seguem numa caixa em um bairro periférico de Cuiabá

Bruno Abbud

, da Redação

bruno.abbud@olivre.com.br

Era um homem simpático, às vezes sisudo, sempre monossilábico e dono de uma voz gutural, que batia com os dedos nas teclas da Olympia, a máquina de escrever alemã, com a voracidade de um Mozart ao piano. Sua genialidade não foi menos intensa. No lugar das notas musicais, contudo, ele enxergava nas palavras o caminho para sua composição.

Como um maestro dos vocábulos, Ricardo Guilherme Dicke se transformou num dos mais talentosos escritores da sua geração, descoberto publicamente por Guimarães Rosa, eleito um ícone da literatura brasileira por Hilda Hilst, premiado por Jorge Amado e Antonio Olinto – mas, no entanto, parte de sua extensa obra, materializada em originais datilografados, permanece dentro de uma caixa na casa de uma sobrinha distante no Jardim Imperial, bairro na periferia de Cuiabá.

Nascido em outubro de 1936 em uma comunidade chamada Raizama, em Chapada dos Guimarães, o mato-grossense Dicke, filho de pai alemão e mãe brasileira, criado em meio a garimpeiros e primogênito de sete irmãos, mudou-se para Cuiabá aos cinco anos de idade. Aos 29, foi estudar arte e filosofia no Rio de Janeiro, e em 1968, antes de arrumar um emprego como revisor no jornal O Globo, escreveu seu primeiro livro: “Deus de Caim”, que conta a história de dois irmãos apaixonados pela mesma moça.

Reprodução

Ricardo Guilherme Dicke

 

No mesmo ano, levou o prêmio Walmap, considerado à época um dos mais importantes concursos literários do Brasil, cujo júri era composto por Guimarães Rosa, Jorge Amado e Antonio Olinto.

“O Dicke foi descoberto por Guimarães Rosa”, conta o jornalista Lorenzo Falcão, que foi muito amigo de Dicke. “Guimarães Rosa disse que ele era um grande escritor que surgiria para balançar o meio literário nacional”.

A partir de então, Dicke percorreu os anos seguintes mergulhado em criatividade. Escreveu “Caieiras”, “Madona dos Páramos”, “A Chave do Abismo”, “Cerimônias do Esquecimento”, “Último Horizonte” e vários outros romances e contos.

Além de tudo, como artista plástico montou um extenso acervo de rostos expressivos, sérios e coloridos. Parte de seus quadros foi adquirida pelo advogado Eduardo Mahon.

O romance “O Salário dos Poetas” foi adaptado para o teatro em Portugal. As últimas edições de quatro obras suas – as coletâneas de contos “A Proximidade do Mar e a Ilha” e “O Velho Moço e Outros Contos”, além do romance “Cerimônias do Sertão” e da novela “Os Semelhantes” – foram lançadas em 2011 pela editora Carlini & Caniato.

Embora tenha conquistado a atenção do meio literário, mesmo que de modo efêmero, e sido nomeado, em 2004, doutor honoris causa pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e apesar de todo o passado intelectual, seu acervo original inédito permanece sob os cuidados de poucos, longe do público, à espera do inevitável dinheiro necessário para lançá-lo.

O publisher Ramon Carlini guarda uma parte, a Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) armazena outra. Algumas folhas estão em Rondonópolis, sob a tutela da única filha de Dicke, Ariadne – fruto do casamento com Adélia Boskov Dicke, a Dona Adélia, que conheceu o marido na praça Alencastro, no centro de Cuiabá, e morreu poucos anos depois dele, no fim de uma vida inteira de união estável. A paixão, vez por outra, era interrompida por discussões corriqueiras banais, às vezes provocadas por sintomas de esquizofrenia que Dicke vinha combatendo com remédios psiquiátricos. Todo o resto do acervo, nunca publicado, permanece na caixa esquecida no Jardim Imperial.

O que já foi impresso e distribuído para livrarias mostra o que se perde com tão pouca difusão. Qualquer trecho que se sorteie nos livros de Dicke será recheado de expressões fortes, poéticas, impactantes. Palavras que se repetem e, como num efeito alucinógeno, projetam uma imagem absolutamente nítida na mente de quem lê. Uma boa maneira de entender Dicke é sugar da abertura aleatória de um de seus livros qualquer parágrafo, como este:

"Bebiano, mudo, pôs os olhos nas estrelas, sonhando, sonhando, sem saber até onde o seu sonho sonhava, um rosto de mulher tomando volume dentro dele, as estrelas pipilando mansas no céu sobre as cabeças dos homens, oscilando. A lua se enchia, prenhada de luz e sombra."

 

 

O trecho é de “Madona dos Páramos”, o livro predileto de Dicke. À força da imagem, somam-se a peculiaridade dos personagens, as passagens excitantes e a pujança do processo criativo do escritor. Para escolher o nome certo de Bisú – um demônio que integra o enredo de um de seus romances inéditos, ainda sem título – Dicke listou 71 nomes de demônios num pedaço de papel. Entre denominações como “Tifon”, “Asmodeu”, “Rafomet” e “Moloch”, ele criava e recriava títulos e orações.

Os personagens variavam; havia o caribenho coberto por dreadlocks que soltava cobras na multidão; os bandidos que fugiam durante uma perseguição a cavalo pelo interior de Mato Grosso; ou os operários xexelentos que trabalhavam na usina de Itaici, no início do século XX.

“A qualidade das imagens e a forma são trabalhadas de modo que a linguagem adquira a capacidade de criar um estranhamento em quem lê”, afirma a revisora Maria Cristina de Aguiar Campos, mestre em Antropologia e membro da Academia Mato-Grossense de Letras.

“Dicke teve acesso aos clássicos da literatura brasileira e, por outro lado, conviveu com Cuiabá e com Mato Grosso num período em que aqui se falava o dialeto cuiabano, uma cultura muito singular em formação, então ele fez registros dessa linguagem e dessa forma de vida e existência sobre esse espaço que é o espaço pantaneiro, e a Chapada dos Guimarães. Ele conseguiu fazer uma mistura desse conhecimento clássico com a história oral desses lugares”.

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Nomes de demônios escritos por Dicke à mão: perfeccionismo na hora de eleger nomes de personagens

Falta de apoio
Dicke não vivia de vender livros. Escrevia nas horas vagas. Durante o horário comercial, era professor. Na caixa encostada na casa da sobrinha distante, Maria Cristina, que em 2006 começou a editar obras de Dicke, encontrou cartas que ele enviava a editoras, muitas das quais recusavam seus trabalhos.

“Ele lutou muito para ser reconhecido”, conta Maria Cristina. “Mas não recebeu todo o reconhecimento que merecia, nem aqui e nem fora do país”. A revisora também encontrou na caixa os originais inéditos datilografados, que atualmente coteja com a intenção de lançá-los em breve. “Hoje há cerca de dez originais dele que não foram publicados”, diz ela. Entre eles estão os romances “A Boca dos Mortos”, “Agora e na Hora” e “Como o Silêncio”, que também aparece sob o título “A Décima Segunda Missa”. “Fora a enorme quantidade de contos, que também podem gerar alguns livros”, diz.

“A Boca dos Mortos” se passa nos arredores da usina de Itaici, logo depois da morte do coronel Antônio Paes de Barros, o Totó Paes. “Muitas pessoas morrem durante uma grande cheia, aquele trabalho quase escravo, a cana, e a história se passa na Vila de Itaici em duas gerações”, conta Maria Cristina. “O título do livro é justamente porque ele fala que os afogados têm uma expressão muito estranha e o mais estranho é a boca desses afogados. A boca dos mortos”, continua ela. “São dois volumes onde esse personagem, um feiticeiro chamado Barrabeu, cultua um demônio chamado Bizú. No segundo volume, ele está mais velho”.

Maria Cristina reclama da falta de interesse de quem, por meio de incentivos fiscais garantidos por lei ou com uma simples canetada, poderia ajudar a difundir a obra de Dicke. “Não temos previsão de lançar essas obras porque não temos recursos”, conta. “Já tive projetos aprovados pela Lei Rouanet, vou atrás das empresas, ofereci para o governo, para a Secretaria de Cultura, mas ninguém tem interesse”.

Segundo ela, a ideia era criar uma “Sala Ricardo Guilherme Dicke”, como a versão reduzida de um museu. “Isso seria em alguma universidade ou na biblioteca pública de Chapada dos Guimarães, com a escrivaninha dele, a máquina de escrever, os discos de vinil, os livros e os quadros. Mas não houve interesse, não houve manifestação de apoio nenhum”.

A busca por financiamentos, conforme conta, é “uma via sacra”. “Alguns manifestam interesse verbal, mas na hora de efetivar o apoio, não tem recurso”, diz. “Um show nessa arena Pantanal custa R$ 60 mil, R$ 80 mil, para uma noite de evento. Com esse dinheiro daria para editar mais de um livro de Dicke”, prossegue. “Mas a obra está desaparecendo, desmanchando nas mãos da gente”.

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Trecho de obra inédita, datilogrado por Dicke

 

Guimarães Rosa e Hilda Hilst
O jornalista Lorenzo Falcão, que também pode ser tranquilamente apresentado sob o dístico de poeta, cineasta e escritor, conheceu Dicke à noite, na “boêmia intelectual”, como costuma dizer. Foi rapidamente apresentado. Anos depois, como jornalista novato, foi entrevistar o homem que, nos anos 1990, já era um tarimbado ícone da cultura mato-grossense. A mão que segurava o gravador tremeu. Dicke notou.

- Você está nervoso, está tremendo?perguntou o romancista.
- Eu estou sempre nervoso, sempre tremendorespondeu Lorenzo.
- Eu também - revelou Dicke.

Tornaram-se grandes amigos. “A literatura dele é muito forte, muito densa, muito intensa, torrencial”, diz Lorenzo. “Difícil de você começar a ler, mas depois que começa é totalmente envolvente”.

Para Lorenzo, o romance “Madona dos Páramos” é o “máximo da prosa do Dicke”. “Ele conseguia passar dessa filosofia profunda e arrastada para um filme de Quentin Tarantino num piscar de olhos”, diz o jornalista. “Tem passagens dos livros dele que são de muita ação, muito movimento, parece um cinema mesmo, um faroeste”.

Dicke entendia um pouco de tudo. Grego, latim, espanhol, italiano, alemão, inglês, mitologia, metafísica, filosofia. “Era um tremendo de um erudito”, resume Lorenzo. Nos anos 90, a ficcionista paulista Hilda Hilst classificou o escritor mato-grossense como um “gigante” da literatura brasileira. Diz Lorenzo: “Hilda Hilst tinha acabado de morrer e o jornal O Globo tinha publicado a última entrevista com ela. Uma das perguntas foi: ‘Quem são os grandes escritores do Brasil?’ Ela disse: ‘Eu estou entre eles. Tem o Guimarães Rosa, o Machado de Assis, e tem esse gigante lá de Mato Grosso. Era o Dicke. Ela o colocou entre Guimarães Rosa e Machado de Assis”.

Embora tenha sido grande, Dicke morreu mais parecido como um homem comum: engasgou-se com um sanduíche que lhe sufocou até perder os sentidos. Às 10 horas do dia 9 de julho de 2008, uma quarta-feira, os dedos mágicos de Dicke perderam para sempre o vigor. As teclas da Olympia nunca mais produziriam som algum. Depois de poucos dias em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), foi enterrado em um caixão idêntico ao do governador Dante de Oliveira, com honrarias promovidas pelo então governador Blairo Maggi. Mas o espetáculo durou pouco. E se desfez. Carimbadas a tinta em folhas amareladas, as relíquias datilogradas pelo gigante de Mato Grosso continuam dentro da caixa, esquecidas no bairro da periferia de Cuiabá.

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