14 de janeiro de 2018 - 07:58

Ao LIVRE, Renato Teixeira fala sobre pacto com a música

Entusiasmado, o cantor e compositor fala das experiências do desafiador trabalho com a Orquestra de Mato Grosso e do novo pensar da música caipira brasileira

Protásio de Morais

, Especial para O LIVRE

Renato Teixeira, um operário da música, como ele mesmo gosta de se reconhecer, cruzou o continental Estado de Mato Grosso acompanhado da Orquestra de Mato Grosso. Sob a batuta do maestro Leandro Carvalho, os concertos abertos em praças públicas atraíram verdadeiras multidões e o resultado dessa incursão foi eternizado no disco “Terra de Sonhos”, gravado naquele mesmo ano. O disco acaba se ser lançado pela gravadora Kuarup e destaca 14 canções que reúne grandes clássicos da carreira do mais ilustre caipira do Brasil. 

Entre um cigarrinho de palha e o touch do smartphone, sentado num canteiro de hotel, à beira da estrada, Renato Teixeira busca novidades nas redes sociais. “Vishi, todo mundo escrevendo! Isso aqui vai dar um caldo”, pensa alto ao ler os comentários acalorados sobre sua parceria com a Orquestra de Mato Grosso.

Entusiasmado, Renato fala sobre as experiências do novo e desafiador trabalho, sobre sua relação com a publicidade, suas referências e origens, falou sobre Ditadura Militar, sobre o novo pensar da música caipira brasileira e seu curioso pacto com a música. Confira entrevista cedida ao LIVRE com exclusividade!

Renato Teixeira

Renato, o que o disco “Terra de Sonhos” tem de diferente dos outros trabalhos da sua carreira?
Renato Teixeira – A gente passa a vida toda fazendo aquele feijãozinho com arroz né?! Fazendo shows, viajando com vários formatos de banda (...). Quando acontece uma coisa dessas, de poder tocar com uma orquestra, com arranjos específicos, que fujam dos formatos originais das músicas, com a interpretação dos maestros, dos arranjadores e dos próprios músicos, causa uma sensação muito boa, de renovação. Eu volto para estrada revigorado, animado, louco para tocar.

Uau! E concertos de lançamento ou novos projetos com a Orquestra de Mato Grosso?
Renato Teixeira – Tem toda expectativa de que o projeto com a Orquestra não pare por aqui. Este trabalho acrescenta algo que não vejo nos outros projetos. Organizar todas essas canções, tão conhecidas não é uma tarefa fácil... eu não acredito em tocar por tocar. Sempre preciso de uma intenção. Nunca fui para o estúdio para gravar um disco por gravar. A intenção aqui é linda, revigora. A música renasce. Uma experiência magnífica. Estou super feliz.

Interessante também deve ter sido o convívio intenso com os instrumentistas da Orquestra, duas semanas agitadas, da estrada para estúdio, do estúdio para estrada.... Como foi?
Renato Teixeira – Nós, os músicos, formamos uma tribo. Dentro dessa tribo, não existe hierarquia. O percussionista é tão importante quanto o cantor. Cria-se um grupo de pessoas que atuam juntas, com pensamentos parecidos. Uma loucura muito interessante, que diverte muito. Estar junto com a tribo é fantástico. Eu não sou uma estrela da música, costumo dizer que eu sou um funcionário da música (...). A música não precisa de estrelas, a música precisa de bons funcionários. Prefiro entender a música por dentro, sacar com quem divido o palco, quem são meus parceiros. Quando uma tribo se junta, um monte de coisas acontece, inclusive música. (risos)

Você está em plena atividade, compondo, fazendo programas de televisão, lançando discos e DVDs, revivendo antigas parcerias e fazendo novas amizades sinceras... Que fase, Renato!
Renato Teixeira – Eu estou numa fase muito produtiva da minha carreira. Já percorri um logo trajeto, desde que tudo começou, quando me mudei de Taubaté para São Paulo, no final dos anos 60. Sou de uma família de muitos músicos. Sou a quinta geração de músicos da minha família. Nunca aconteceu nada na minha vida que não fosse música, desde criança. Quando eu nasci já tinha cantoria na minha casa, meus pais, meus avos, meus tios. Foi assim também com os meus filhos. Chico, a propósito, excursionou nesse trabalho com a Orquestra também...

Foi difícil hastear a bandeira da música caipira na aurora da bossa nova, nos anos 70?
Renato Teixeira – Quando eu fui para São Paulo, a música no Brasil passava por uma fase interessante. Surgia o tropicalismo, Chico Buarque estourando, Tom Jobim se consagrava internacionalmente, quando gravou com Frank Sinatra. Essa era a tribo daquela época, e eu naquele meio, caipirinha de Taubaté, no meio daquelas feras todas. Eu mais observava do que atuava, mesmo porque tem um detalhe, eu posso me considerar um cara abstêmio, ou seja, eu não bebo, não me divirto com isso. E àquela época, principalmente aquela época, todo mundo bebia muito. Eu ficava observando a história, vendo coisas de outro ponto de vista, eu estava sóbrio né. (risos)

Mas o que aconteceu depois?
Renato Teixeira – A partir dali, começa a acontecer uma série de coisas que mudaria minha vida. A Ditadura Militar parando a música, parando as artes no Brasil, mandando artistas embora do país. Aí eu fui ser publicitário, uma questão de sobrevivência, fui fazer jingle e acabei me apaixonando pela profissão. Eu tenho um orgulho danado da minha carreira publicitária, uma coisa mágica na minha vida, numa época de obscuridade total, de burrice absurda do Estado. Na publicidade eu tinha acesso ao que o mundo produzia de mais moderno no cinema, revistas, com informação, com pesquisas. A publicidade me modernizou, deixei de ser um caipira do mato graças a publicidade.

Mas seus planos estavam além da publicidade, claro!
Renato Teixeira – É! Fiquei na publicidade por um bom tempo, até que em 77 ou 78, não lembro bem, Elis Regina gravou Romaria. E Romaria já era resultado da minha proposta de observar a música caipira dos grandes gênios da primeira fase, de um ciclo que se cumpria naquele momento, e dar continuidade. E a música caipira estava sucumbindo à bossa nova, ao tropicalismo, à obra magnífica do Chico Buarque, Edu Lobo, Tom Jobim, enfim, uma série de grandes músicos, sofisticados, fazendo música sofisticada. Hoje no Brasil, a parada de sucesso é banal. Aquela época não. Primeiro lugar na parada de sucesso: Arrastão com Elis Regina, música de Edu Lobo e Vinicius de Moraes.

Mas você não ficou tentado a seguir pelo caminho da bossa ou do samba?
Renato Teixeira – Vou te contar uma história. Eu estava num bar, um dia, e um amigo meu apareceu, Sidnei Mira, chegou acompanhado de um amigo dele e disse que aquele tal amigo fizera o samba mais bonito que já se compôs. Era Paulinho da Viola cantando Coisas do Mundo Minha Nega. Naquele momento eu estava realmente sem saber para que lado ir. A informação que eu tinha era do caipirismo das pequenas cidades, minha turma de Taubaté. Aí caiu a minha ficha: eu nunca faria um samba com essa verdade que o Paulinho faz. Foi quando me dei conta de que precisava ir atrás das minhas origens, eu precisava cantar o que eu sabia, não o que eu imaginava que sabia. Então eu voltei para o meu pensar caipira e comecei a desenvolver meu trabalho. Romaria talvez seja a primeira canção que exemplifique isso. Minha origem é toda MPB, peguei a música caipira presente no meu inconsciente e misturei tudo.

E depois de Romaria, o que veio?
Renato Teixeira – Na minha geração, todo mundo ficava muito preocupado em fazer o primeiro sucesso e não ser capaz de fazer o segundo. O segundo sucesso era bem mais tenso de se conquistar. Tinha uma novela, chamada Pai Herói, para qual eu escrevi uma canção chamada Cavalo Bravo. Não se transformou num grande sucesso como Romaria, mas se transformou num sucesso. Mas depois do segundo sucesso, acontece o pior: e o terceiro sucesso! Aí veio o Frete para o seriado Carga Pesada. Depois escrevi Amanheceu Peguei a Viola, para o programa Som Brasil, e foi então que eu parei de me preocupar com isso. (risos)

E assim a música caipira ganhou um novo status?
Renato Teixeira – Na música, acreditar não é tudo mas é 100%, como diria meu amigo Falcão (risos). E assim eu venho tentando mostrar que a música brasileira do interior tem muita força. Não se pode desconsiderar um Raul Torres, um João Pacífico, Tonico & Tinoco, um Tião Carreiro, que por sinal ainda nem foi totalmente descoberto, o Brasil ainda nem percebeu o tamanho desse compositor. Eu me deixei influenciar por esses caras e criei um elo com eles. Depois veio o Rolando Boldrin, Almir Sater, Sergio Reis. Em Mato Grosso tem Paulo Simões, Geraldo Roca, têm os Espindolas. Você vai à Bahia tem o Xangai, Elomar. No Sul temos Borghetinho, Yamandu. Trata-se de um novo pensar musical. Além dessa turma, eu ainda vejo o caipirismo através do Lobato, Guimaraes Rosa, Tarsila do Amaral, Mario de Andrade... e assim eu sigo, não judio da música e a música não judia de mim. Esse é meu pacto com ela!

Confira o vídeo! Tem música e alguns trechos da entrevista...

 

 

 

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