13 de fevereiro de 2018 - 13:01

Do século 18 à década de 1970: saiba como era a Cuiabá de outros carnavais

Segundo registros históricos Cuiabá já celebra o carnaval há 242 anos

Lidiane Barros

, da Redação

lidiane.barros@olivre.com.br

Reprodução Cuiabá de Antigamente

Carnaval décadas de 1920/1930

Registro entre as décadas de 1920 e 1930, divulgado pela página História do Carnaval Cuiabano, e que revela foliões de corsos, um tipo de agremiação que utilizava veículos nos desfiles; foliões realizavam as famosas batalhas de confetes e serpentinas 

 

Hoje é dia oficial do carnaval 2018 e os foliões cuiabanos podem sair às ruas com orgulho e propriedade de quem celebra uma das festas mais populares da nação, há pelo menos 242 anos. A história é documentada por registros do Arquivo Público do Estado de Mato Grosso, personagens que vivenciaram alguns dos pontos altos do carnaval cuiabano e que relataram sua vivência em entrevistas a jornais locais ou compartilharam suas memórias via redes sociais. 

Impulsionada por uma publicação especial lançada em 1976 – a pedido do então prefeito Rodrigues Palma e que contou com pesquisa de Carlos Rosa e Neusa Bini (in memorian), imagens de Silva Freire e arte de Wlademir Dias-Pino – a reportagem de O LIVRE embarcou na máquina do tempo do carnaval cuiabano para evidenciar e reviver fatos e características que retratam a história regional, em diversas décadas. O documento original pode ser encontrado no Arquivo Público. 

O DNA carnavalesco de nossos ancestrais parece manter a engrenagem de uma das festas mais populares e que continua levando milhares às ruas. Os corsos, cordões e a diversidade dos saudosos clubes que reuniam a nata ou as camadas menos abastadas já não existem mais. No entanto, o carnaval dos blocos está mais vivo do que nunca, não é mesmo? 

Século 18

Reprodução Suplemento 1976/Ednilson Aguiar 

carnaval século 18

Neste período, o carnaval tinha outro nome. Era conhecido como Entrudo. O carnaval esplendoroso era extremamente democrático e reunia na mesma festa, reinóis e funcionários da coroa junto aos “naturais da terra”, como ressalta a publicação. Um trecho do Anais do Senado da Câmara de Cuiabá, descreve os festejos carnavalescos de 1786: “comédias, bailes e danças com máscaras finalizaram o último dia do entrudo”.

Século 19

Em 1861 foi fundada a primeira sociedade carnavalesca, com estatuto próprio e sócios que contribuíam financeiramente. No período, eram realizados bailes em casas particulares. O combate dos confetes, comum a décadas futuras, era configurado pelo batlha dos limões de cheiro, feitos de cera, em diversas cores e que continham águas de colônia. Quando acabavam, os filões recorriam à agua pura em canecos, baldes e bacias. Mais tarde a prática foi alvo de críticas.

1900

A comissão de Os Estrambólicos, em publicação em periódico de 1902, convidava os foliões a prestarem homenagem ao grande “pandego deus Momo”. Convidava-se a "bela e luzida rapaziada cuiabana a reunir-se no Teatro Amor à Arte para deliberar sobre os festejos segenefláticos e repimponéticos" (adjetivos que já não constam nem em dicionário).

Arquivo Público de Mato Grosso/Reprodução Ednilson Aguiar

carnaval século XX

 

1910

O uso do lança-perfume consagrou-se nos carnavais cuiabanos da época. Ele era, inclusive, utilizado para batalhas, tais quais as de confetes. Com pouco vigor, neste período os cordões dominavam e alguns carros alegóricos começaram a surgir aí. Em 1914, os mascarados levavam para as ruas críticas ferinas, a ponto da Liga Católica da Companhia São Luiz solicitar em petição a autoridades locais que durante os festejos de carnaval não saíssem às ruas, carros, bandos ou máscaras ofensivas.

 

lança-perfume

1920

Arquivo Público de Mato Grosso/Reprodução Ednilson Aguiar

carnaval 1920

Os bailes no extinto Cine Parisien (onde ficava o Teatro Amor à Arte e onde atualmente funciona o Banco Bradesco, na rua Barão de Melgaço) acolhia os bailes do Club Concórdia. Concursos carnavalescos despontavam, como em 1928, em que um destes premiou o saudoso Mé Coado (composto por rapazes) com a fantasia mais distinta. Entre as categorias do carnaval dos blocos, foram escolhidos ainda, o homem mais cínico, a moça mais graciosa o velho mais gaiato e até o rapaz mais bocó (simplório e acanhado).

carnaval 1928

Entre os prêmios, despontavam produtos cosméticos como a brilhantina e o pó de arroz, utensílios domésticos e tubos de lança-perfume. O desfile dos corsos também ganhava força. Foi neste período que ficou definido o trajeto que saía da Praça da República em direção à 13 de junho, Generoso Ponce e Joaquim Murtinho e vice-versa. Os carros deveriam ficar a uma distância de 3 metros e se locomoverem a uma velocidade média de 8 km/h. As regras foram estabelecidas por portaria especial da Delegacia de Polícia da época. A propósito, a reportagem encontrou dois boletins de ocorrência em 1923, cinco anos antes, que narravam a morte de duas pessoas, um menino e um senhor de mais idade.

1930

Arquivo Público 

carnaval 1930

O período marca a fundação do Clube Feminino, grande incentivador dos luxuosos bailes à fantasia da elite cuiabana, dos ricos espetáculos e concursos de rainhas de carnaval. Aparecem no período também, os bailes infantis em que as melhores fantasias eram premiadas e os prêmios reforçavam o status dos pais. Nesta época, a elite afastou-se dos blocos e cordões, onde os populares predominavam.

1940


Com a II Guerra Mundial rondando o mundo, o carnaval cuiabano também sentiu seus efeitos e vivenciou as sensações do semi-isolamento. Mesmo com as dificuldades, manteve sua tradição, embora mais elitizada, especialmente, pelo agravamento da situação financeira dos menos favorecidos. Além do elitizado Clube Feminino, surgia o recém-inaugurado Grande Hotel, cenários dos carnavais da época. Foi no período que os concursos de canções carnavalescas tiveram maior força, sob a liderança de Zulmira Canavarros. Muitos blocos floresciam com seus nomes curiosos: Desconhecedores da Crise e Inocentes da Prainha eram alguns deles.

Arquivo Público de Mato Grosso/Reprodução Ednilson Aguiar 

carnaval 1940

 

1950

Arquivo Público de Mato Grosso/Reprodução Ednilson Aguiar

carnaval 1950

O carnaval de rua teve destaque, com seus blocos e concursos. Surgia à época, o Clube Náutico para fazer duo com o Clube Feminino. Blocos como o Marinheiro, Sempre Vivinha, Turma do Morro, das Caveiras e o saudoso Coração da Mocidade ganhavam cada vez mais seguidores. Muitas das alegorias, segundo o historiados Aníbal Alencastro, eram feitas de pau, tais quais barcos e navios. O cuiabano possuía uma relação muito forte com o rio.

Reprodução/Acervo Aníbal Alencastro

Sempre Vivinha

Registro do Sempre Vivinha

1960

Arquivo Público de Mato Grosso/Reprodução Ednilson Aguiar

carnaval década de 1960

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O carnaval dos cordões/blocos continuava firme, marcados pelas concentrações dos blocos em que rolavam batalhas de confetes. Os veículos desfilavam enfeitados de serpentinas e os passageiros simulavam batalhas jogando confetes. Normalmente, cada bairro tinha o seu cordão, ou bloco, como também era chamado. Havia uma comissão de frente, os foliões e uma banda tocando atrás. De acordo com o jornalista Romeu Roberto Memeu (in memorian), os blocos se concentravam entre as Praças Santa Rita (atual Rachid Jaudy) e o Jardim Ipiranga (Praça Ipiranga). O desfile oficial acontecia na avenida Getúlio Vargas. Mas o carnaval do corso começava a ficar na memória, sendo substituído pelos desfiles e bailes que passavam a ganhar mais espaço neste período. O Clube Náutico continuava reinando!

Acervo Aníbal Alencastro

Clube Náutico década de 1960

Clube Náutico na década de 1960

1970

Na década de 1970, as escolas de samba começam a mudar o cenário, uma espécie de evolução dos cordões. Os foliões influenciados pelo carnaval carioca foram mudando a cara do carnaval. A Deixa Cair foi a primeira escola de samba de Cuiabá. Logo, foram surgindo outras, como a Mocidade Independente Universitária que evoluiu da Banda U, da Universidade Federal de Mato Grosso, uma espécie de trio elétrico que acompanhou em 1974, a exemplo, a Deixa Cair. É nesse momento que as marchinhas passam a perder espaço para o samba-enredo.

Deixa Cair primeira escola de samba de Cuiabá carnaval

Deixa Cair, primeira escola de samba de Cuiabá

 

Mas em 1976, começou uma nova movimentação em prol do carnaval com cara de Cuiabá. A convite do então prefeito, Rodrigue Palma, artistas colocavam em prática a estetização da cuiabanidade, como aponta a publicação organizada por importantes personagens da cultura cuiabana, como é o caso de Carlos Rosa, Neusa Rosa, Silva Freire e Dias-Pino que inspirou a diagramação e estampa o suplemento especial com a “Floração do Cerrado”.

Arquivo Público de Mato Grosso/Reprodução Ednilson Aguiar

Imagem suplemento especial carnaval 1976

À época as escolas de samba foram reforçadas e orientadas para que não se multiplicassem, enfraquecendo. Os blocos e cordões foram revividos, os mascarados, pernas de pau, o corso e as batalhas de confete.

 

E é claro, de lá para cá, registros dos carnavais são encontrados com mais facilidade, dada a democratização das máquinas fotográficas, da revelação de fotos e acervos pessoais, rapidamente localizados nas redes sociais. Uma página no Facebook a exemplo, a História do Carnaval Cuiabano reúne alguns registros - que contemplam períodos como os das décadas de 1980, 1990 e anos 2000 - a partir da colaboração de seus seguidores, bem como uma das comunidades mais acessadas, a Cuiabá de Antigamente. E a história de hoje, claro, é um caleidoscópio das fotos que você compartilha em suas redes sociais. É a história salvaguardada não só em acervos pessoais e arquivos públicos, e também, salvas na nuvem!

 

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