17 de abril de 2017 - 14:45

Cuiabá recebe novamente a itinerância da Bienal de São Paulo

Palácio da Instrução foi revitalizado para sediar a mostra, que apresentou 17 projetos artísticos

Da Redação

pautas@olivre.com.br

As itinerâncias da 32ª Bienal de São Paulo chegam a Cuiabá a partir de 8 maio e se estende até 9 de julho próximo. O recorte de obras pensado para o Palácio da Instrução terá trabalhos de Bárbara Wagner (Brasil), Carolina Caycedo (Colômbia), Charlotte Johannesson (Suécia), Dalton Paula (Brasil), Ebony G. Patterson (Jamaica), Eduardo Navarro (Argentina), Felipe Mujica (Chile), Francis Alÿs (Bélgica), Gilvan Samico (Brasil), Gu¨nes¸ Terkol (Turquia), Jonathas de Andrade (Brasil), Mmakgabo Helen Sebidi (África do Sul), Pierre Huyghe (França), Rachel Rose (Estados Unidos), Vídeo nas Aldeias (Brasil) e Wilma Martins (Brasil).

O evento renova a parceria institucional entre a Fundação Bienal de São Paulo e a Secretaria de Estado de Cultura - SEC (Cuiabá-MT). Em 2015, por ocasião das itinerâncias da 31ª Bienal, o Palácio da Instrução foi revitalizado para sediar a mostra, que apresentou 17 projetos artísticos, 8 encontros com educadores da rede pública de ensino de Cuiabá e Várzea Grande e reuniu um total de 8.900 visitantes.

Intitulada Incerteza Viva (Live Uncertainty), a 32ª Bienal tem como eixo central a noção de incerteza a fim de refletir sobre atuais condições da vida em tempos de mudança contínua e sobre as estratégias oferecidas pela arte contemporânea para acolher ou habitar incertezas. A exposição se propõe a traçar pensamentos cosmológicos, inteligência ambiental e coletiva assim como ecologias naturais e sistêmicas. A mostra foi concebida em torno das obras de 81 artistas e coletivos sob curadoria de Jochen Volz e dos cocuradores Gabi Ngcobo (África do Sul), Júlia Rebouças (Brasil), Lars Bang Larsen (Dinamarca) e Sofía Olascoaga (México).

A 32ª edição da Bienal, que recebeu 900 mil visitantes em 2016, terá recortes exibidos em cidades no Brasil e no exterior em 2017. Seleções de obras viajam às cidades de Campinas/SP, Belo Horizonte/MG, São José dos Campos/SP, Cuiabá/MT, São José do Rio Preto/SP, Ribeirão Preto/SP, Garanhuns/PE, Palmas/TO, Santos/SP, Itajaí/SC e Fortaleza/CE. Itinerâncias internacionais já estão confirmadas na Colômbia e em Portugal.

Artistas e obras

Bárbara Wagner 1980, Brasília, Brasil. Vive em Recife, Pernambuco. O brega é música, dança, cena cultural e economia criativa na periferia do Recife. Em duas linhagens, funk e romântico, constitui uma cadeia de MCs, DJs, bailarinos, produtores, empresários e público. Seus hits – eróticos, irônicos, lamuriosos e, em alguns casos, ainda machistas – extrapolam os limites socioeconômicos dos bairros e participam da paisagem sonora de uma cidade convulsiva em suas diferenças. A artista Ba´rbara Wagner, em parceria com Benjamin de Burca, desconstro´i esse feno^meno no filme Esta´s vendo coisas (2016) e o analisa tornando visi´veis as singularidades, as erra^ncias e tambe´m algumas relac¸o~es entre seus agentes. A boate Planeta Show abrigou o experimento de um retrato coletivo e filmado, que, nessa condic¸a~o, desafia o cara´ter preciso da fotografia. O resultado na~o deixa de ser documental, mas e´ parcialmente ofuscado pela luz artificial de estu´dio, camarim, palco e tela, com personagens que encenam a si mesmos.

Carolina Cayced 1978, Londres, Reino Unido. Vive em La Jagua, Colômbia e Los Angeles, Califórnia, EUA. Carolina Caycedo volta sua pra´tica para a discussa~o de contextos impactados por grandes obras infraestruturais de cara´ter desenvolvimentista. Em sua pesquisa recente, analisa os danos ambientais e sociais atrelados a` construc¸a~o de barragens e ao controle dos cursos naturais da a´gua. Por meio do envolvimento com grupos e comunidades afetadas por essas transformac¸o~es, a artista investiga ideias de fluxo, assimilac¸a~o, resiste^ncia, representac¸a~o, controle, natureza e cultura. A Gente Rio–Be Dammed [A Gente Rio–Barrado seja] (2016) e´ um projeto que compreende pesquisas em arquivos, estudos de campo e atividades com comunidades ribeirinhas abaladas pela privatizac¸a~o das a´guas. A Gente Rio (2016), pesquisa produzida para a 32ª Bienal, trata da vida implicada nesses rios e em suas margens. A obra e´ composta por distintos elementos, como montagens de fotografias de sate´lite das usinas hidrele´tricas de Itaipu e de Belo Monte e do antes e depois do rompimento da represa de Bento Rodrigues (Mariana, MG); um vi´deo feito por Caycedo nessas regio~es; tarrafas coletadas durante seus estudos de campo inseridas nos va~os entre os andares do Pavilha~o da Bienal; e desenhos que contam as narrativas dos rios Yuma (Colo^mbia), Yaqui (Me´xico), Elwha (EUA), Watu, conhecido como Rio Doce e Iguac¸u (Brasil) como entidades vivas dotadas de histo´rias pro´prias.

Charlotte Johannesson 1943, Malmö, Suécia. Vive em Skanör, Suécia. Instrui´da em tecelagem, Charlotte Johannesson comec¸ou a fazer tapec¸arias como arte nos anos 1970. Seus trabalhos satirizavam a poli´tica tradicional e muitas vezes consistiam em comenta´rios feministas e engajados sobre acontecimentos globais. Como reac¸a~o ao golpe militar do general Augusto Pinochet em 1973, por exemplo, ela produziu Chile Echoes in My Skull [O Chile ecoa no meu cra^nio] (1973/2016), no qual se po~e na posic¸a~o de testemunha atormentada e tece uma imagem de sangue derramando de veias abertas da Ame´rica Latina. Em 1978, Johannesson trocou seu tear por um Apple II Plus, a primeira gerac¸a~o de computadores pessoais. Aprendendo a programar sozinha, ela adotou as mesmas medidas que usava no tear para o computador (239 pixels na horizontal e 191 pixels na vertical). Financiada pelo Departamento Nacional Sueco de Tecnologia e Desenvolvimento, ela fundou o Digital Theatre [teatro digital] com seu parceiro Sture Johannesson, em Malmo¨, na Sue´cia. Enquanto existiu, entre 1981 e 1985, o Digital Theatre foi uma tecno-utopia em miniatura e o primeiro laborato´rio de arte digital da Escandina´via. Charlotte Johannesson se dispo^s a criar “micro-performances”: gra´ficos digitais em tela e impressos, e experimentos com computadores em tempo real.

Daltn Paula, 1982, Brasília, Brasil. Vive em Goiânia, Goiás, Brasil. Na obra de Dalton Paula, objetos sa~o destitui´dos de suas func¸o~es originais para se tornarem suporte da pintura. Primeiro as enciclope´dias, antigas detentoras de um conhecimento universalista, tiveram suas capas sobrepostas por representac¸o~es de sujeitos e saberes comumente omitidos em seu conteu´do, como negros e indi´genas. Agora esse procedimento se repete sobre um conjunto de alguidares, pratos cera^micos que recebem a comida e tambe´m as oferendas em rituais de religio~es afro-brasileiras. Com a pintura em seu interior, esses objetos confrontam os discursos hegemo^nicos da arte e da poli´tica, buscam novos personagens e reencenam passagens de nossa histo´ria. Piracanjuba, em Goia´s, Cachoeira, no Reco^ncavo Baiano, e Havana, em Cuba, sa~o cidades produtoras de tabaco. Essa atividade econo^mica remonta ao passado colonial e a` migrac¸a~o de africanos escravizados nas Ame´ricas. Paula viajou aos tre^s pontos dessa Rota do tabaco (2016) para pesquisar como essa heranc¸a se apresenta hoje. Encontrou desde a precariedade dos meios de trabalho nas fa´bricas de cigarrilhas ate´ o uso dos charutos como i´cone da revoluc¸a~o comunista. No vasto imagina´rio retratado, o fumo e´ um contexto omitido que revela o contraste entre corpos negros e roupas brancas, entre a invisibilidade da cultura afro-brasileira e os legados de cura – medicinal e espiritual – extrai´dos do tabaco.

Ebony G, Patterson 1981, Kingston, Jamaica. Vive em Kingston e Lexington, Kentucky, EUA. A artista parte de refere^ncias da pintura para compor cenas e retratos que se relacionam com a cultura popular e o forte contexto de viole^ncia carateri´stico de diversas comunidades em Kingston, Jamaica. Transitando por te´cnicas variadas, a artista tem a fotografia como primeira etapa na elaborac¸a~o de suas composic¸o~es. Transforma as imagens em tapetes que, por meio de colagens, recebem camadas de tecidos e ornamentos. Os paine´is de grande dimensa~o que dai´ derivam exploram o excesso de material, brilho e cor como forma de lanc¸ar luz sobre a necessidade de distinc¸a~o por meio de bens de consumo e opule^ncia, comportamento intimamente ligado a procedimentos de opressa~o social. A despeito da superfi´cie colorida, as cenas retratam, de modo quase mime´tico, corpos estendidos no cha~o, assim como momentos casuais de convive^ncia na rua. O conjunto de paine´is apresentado na 32ª Bienal e´ uma tentativa de trac¸ar paralelos entre os contextos socioculturais do Brasil e da Jamaica. Reagindo aos altos i´ndices de assassinato de crianc¸as e jovens negros nos dois pai´ses, Patterson retrata uma infa^ncia que e´ pote^ncia de criac¸a~o e transformac¸a~o, e que, ao mesmo tempo, padece diante de sistemas excludentes e violentos.

Eduardo Navarro, 1979, Buenos Aires, Argentina. Vive em Buenos Aires. Eduardo Navarro explora diferentes ni´veis de percepc¸a~o e formas de alterac¸a~o da realidade e do tempo. Ora seu trabalho se insere na delicada relac¸a~o entre a arte e o espiritual, ora utiliza aparatos e informac¸o~es provenientes do campo da cie^ncia. Com isso, o artista conduz o pu´blico a estados mentais que exploram modos na~o racionais de comunicac¸a~o, indo ale´m da linguagem verbal. Navarro parece testar o potencial transformador da arte, criando situac¸o~es em que comportamentos, maneiras de pensar e sistemas de crenc¸a sa~o colocados a` prova ou levados a exceder limites. Na 32ª Bienal, apresenta Sound Mirror [Espelho de som] (2016), um instrumento construi´do para conectar acusticamente uma palmeira e o espac¸o expositivo. A planta e o pu´blico sa~o colocados em posic¸a~o de equivale^ncia, numa troca sonora que desafia os significados de comunicac¸a~o e de escuta. A obra de Navarro aponta para uma tecnologia emocional capaz de nos fazer refletir sobre as conexo~es afetivas que a arte desencadeia por meio da relac¸a~o permea´vel entre os seres vivos, o artista e o pu´blico, os atores e os objetos arti´sticos.

Felipe Mujica, 1974, Santiago, Chile. Vive em Nova York, EUA. Os projetos de Felipe Mujica se organizam a partir de duas formas principais de atuação: de um lado, sua pesquisa visual, que envolve a criação de instalações de painéis de tecido móveis e interativos; de outro, a organização colaborativa de exposições, publicações e gestão de espaços culturais. Permeia essa atuação a investigação sobre o passado recente da arte latino-americana, com interesse específico por experiências que aproximam educação e arte moderna. Aspecto fundamental de seu método de trabalho é a abertura da obra ao diálogo com outros artistas, com o público e com comunidades. No projeto Las universidades desconocidas [As universidades desconhecidas] (2016), Mujica trabalha em parceria tanto com os artistas brasileiros Alex Cassimiro e Valentina Soares, como com o grupo Bordadeiras do Jardim Conceição, formado por cerca de quarenta moradoras desse bairro na cidade de Osasco. A partir de desenhos realizados pelo artista, os grupos de colaboradores criaram e confeccionaram as cortinas que compõem a instalação. Produzidas com os mesmos materiais e técnicas distintas, as peças costuram saberes pessoais formados por diferentes repertórios e experiências, unidos agora como lados complementares de uma mesma realidade: o trabalho criativo coletivo.

FrancisAlÿs, 1959, Antuérpia, Bélgica. Vive na Cidade do México, México. A obra de Francis Aly¨s baseia-se em ac¸o~es propostas ou praticadas pelo artista, que se desdobram em vi´deos, fotografias, desenhos e pinturas. Frequentemente evocando uma sensac¸a~o de absurdo ou insensatez, seus trabalhos pesquisam criticamente situac¸o~es poli´ticas, sociais e econo^micas na vida contempora^nea. A instalac¸a~o concebida para a 32ª Bienal consiste em pinturas de paisagem e um filme de desenhos animados, todos Untitled [Sem ti´tulo] (2016). Esses elementos esta~o instalados em paredes de espelhos, que revelam o verso dos desenhos e pinturas, fixados com alguma inclinac¸a~o. As imagens refletidas do pu´blico e do espaço expositivo tornam-se tambe´m parte integrante do projeto, o que nos convida a questionar qual e´ a nossa relac¸a~o – e do ambiente institucional e urbano em que estamos inseridos – com as diferentes situac¸o~es e noc¸o~es de cata´strofe discutidas por Aly¨s.

Gilvan Samico, 1928, Recife, Pernambuco, Brasil - 2013, Recife. O artista apresenta em suas gravuras mitos e cosmologias repletos de simbologias. Suas composições têm a simetria e a verticalidade como valores que organizam narrativas sobre a natureza – sendo homens e mulheres parte desse ambiente – e instâncias sagradas que se relacionam com a vida terrena. Iniciou sua prática artística como autodidata no Recife, mas depois estudou sob tutela de Lívio Abramo e Oswaldo Goeldi. A impressão de suas gravuras era feita de forma minuciosa e manual. A produção de cada peça presente na 32ª Bienal levou um ano de trabalho do artista, entre 1975 e 2013. Influenciado pela arte popular nordestina, Samico tem como referência a literatura de cordel e o Movimento Armorial, sendo o encontro com o escritor Ariano Suassuna um importante ponto de inflexão em sua trajetória. Partindo de narrativas locais, Samico traça uma história visual que engloba cosmologias sobre a formação do mundo e o estudo de livros como a trilogia Memoria del Fuego, do escritor uruguaio Eduardo Galeano, publicada entre 1982 e 1986. Assim, os títulos das obras funcionam como chaves de leitura que, junto às imagens, revelam camadas que pertencem e povoam o imaginário de tantas culturas.

Günes Terkol, 1981, Ankara, Turquia. Vive em Istambul, Turquia. Gu¨nes¸ Terkol desafia os imagina´rios relacionados ao feminino a partir de histo´rias pessoais ou coletivas compartilhadas por mulheres em oficinas que organiza para sua pesquisa e processo de trabalho. O bordado, pra´tica culturalmente atribui´da ao ambiente dome´stico e ao labor da mulher, ganha camadas pu´blicas e poli´ticas em sua produc¸a~o. Na 32ª Bienal, sa~o apresentadas as se´ries Couldn’t Believe What She Heard [Na~o posso acreditar no que ela ouviu] (2015) e The Girl Was Not There [A menina na~o estava la´] (2016), essa u´ltima comissionada para a exposic¸a~o. Na primeira, em uma montagem aberta, Terkol cria imagens nas quais elementos relacionados ao estereo´tipo do “universo feminino” – unhas esmaltadas, cabelos, sapatos – sa~o contrastados com fragmentos de corpos cujo sexo na~o e´ possi´vel identificar. Na segunda se´rie, a artista resgata o cara´ter mi´stico e idi´lico da natureza. A colorac¸a~o se origina de materiais orga^nicos, como cebola, folhas de tabaco, abacate e beterraba, e compo~e paisagens ou cenas que mesclam elementos ornamentais, molduras vazias e figuras inventadas. O tecido utilizado subverte a aparente fragilidade das obras e sua transpare^ncia possibilita entrever as composic¸o~es, multiplicando e desconstruindo os imagina´rios do feminino e da natureza.

Jonathas de Andrade, 1982, Maceió, Alagoas, Brasil. Vive em Recife, Pernambuco, Brasil. O artista trabalha com suportes variados, como instalac¸a~o, fotografia e filme, em processos de pesquisa que te^m profundo cara´ter colaborativo. Sua obra discute a fale^ncia de utopias, ideais e projetos de mundo, sobretudo no contexto latino-americano, especulando sobre sua modernidade tardia. Em seu trabalho, afetos que oscilam entre a nostalgia, o erotismo e a cri´tica histo´rica e poli´tica sa~o agenciados para abordar temas como o universo do trabalho e do trabalhador, e a identidade do sujeito contempora^neo, quase sempre representado pelo corpo masculino. O filme O peixe (2016), apresentado pela primeira vez na 32ª Bienal, acompanha pescadores pelas mare´s e pelos manguezais de Alagoas, que utilizam te´cnicas tradicionais de pesca, como rede e arpa~o, na espera pelo tempo necessa´rio para capturar a presa. Cada pescador encena uma espe´cie de ritual: eles rete^m os peixes entre seus brac¸os ate´ o momento da morte, uma espe´cie de abrac¸o entre predador e presa, entre vida e morte, entre o trabalhador e o fruto do trabalho, no qual o olhar – do pescador, do peixe, da ca^mera e do espectador – desempenha papel crucial. Situada num territo´rio hi´brido entre documenta´rio e ficc¸a~o, a obra dialoga com a tradic¸a~o etnogra´fica do audiovisual.

Mmakgabo Helen Sebidi, 1943, Marapyane, África do Sul. Vive em Joanesburgo, África do Sul. Nascida na vila de Marapyane, Mmakgabo Helen Sebidi aprendeu com a avo´ te´cnicas tradicionais de pintura em parede e cera^mica. Mudou-se para Joanesburgo adolescente e, entre as de´cadas de 1970 e 80, participou de cursos e atelie^s em espac¸os que proporcionaram o contato com outros artistas e um ambiente politizado, o que impactaria a tema´tica de seus trabalhos. Sebidi retrata experie^ncias cotidianas e sabedorias ancestrais, assim como mostra o sofrimento infringido pelo contexto do apartheid, especialmente para mulheres negras. De seus professores e colegas artistas ela absorveu te´cnicas de colagem e elementos abstratos, gerando o emblema´tico di´ptico Tears of Africa [La´grimas da A´frica] (1987-1988), presente na 32ª Bienal. A obra, produzida em carva~o, tinta e colagem, trata de conflitos continentais assim como da aspereza das relac¸o~es humanas no cotidiano da cidade grande e suas decepc¸o~es, agravadas pela degradac¸a~o das estruturas familiares e pelo regime de segregac¸a~o que vigorou oficialmente na A´frica do Sul de 1948 a 1994. Novas obras, criadas durante sua reside^ncia arti´stica em Salvador, na Bahia, e presentes na exposic¸a~o, geram uma conversa entre o Brasil e o continente em que Sebidi nasceu e ativam um dia´logo entre os dois trabalhos.

Pierre Huyge, 1962, Antony, França.Vive em Santiago, Chile e Nova York, EUA. Os trabalhos de Pierre Huyghe desafiam as fronteiras entre ficção e realidade. Sua obra se materializa em meios como filme, situações ou exposições, operando, por vezes, como ecossistemas – jardins, aquários ou um museu com microclima programado. Huyghe inclui em sua prática elementos que desafiam a noção de objeto de arte. Tanto o público quanto outros organismos podem ser incorporados dentro de uma rede dinâmica a fim de criar um grande organismo vivo em constante evolução.

Rachel Rose, 1986, Nova York, EUA. Vive em Nova York. Em seus vi´deos e instalac¸o~es, Rachel Rose constro´i narrativas por meio de processos de edic¸a~o, utilizando a livre e abundante circulac¸a~o e associac¸a~o de vi´deos e imagens. A sobreposic¸a~o de camadas, procedimento comum a` pintura, e´ aplicada aqui a arquivos digitais, criando uma imagem hi´brida com forte potencial sineste´sico. A Minute Ago [Um minuto atra´s] (2014) e´ uma reflexa~o sobre a experie^ncia da cata´strofe, que mescla um vi´deo encontrado no YouTube de uma su´bita tempestade de granizo em uma praia com relatos do arquiteto americano Philip Johnson em sua Casa de Vidro, que, por sua vez, sa~o confrontados com a reproduc¸a~o da pintura "O funeral de Phocion" (1648), do france^s Nicolas Poussin, entre outros elementos.

Vídeo nas aldeias criado em 1986. Baseado em Olinda, Pernambuco, Brasil. Há três décadas, o Vídeo nas Aldeias tem mobilizado debates centrais aos povos indígenas e à produção e difusão audiovisual. O projeto tem como um de seus objetivos a formação de realizadores indígenas, desestabilizando narrativas forjadas com base no olhar externo. Questões éticas e escolhas estéticas são entrelaçadas em seus projetos, que tratam de assuntos como rituais, mitos, manifestações culturais e políticas, e experiências de contato e de conflito com os brancos. Fundado pelo indigenista Vincent Carelli, Vídeo nas Aldeias capta recursos e circula seus trabalhos, realiza exibições em comunidades indígenas, festivais de cinema, televisão, internet e elabora materiais didáticos. Para a 32ª Bienal, Ana Carvalho, Tita e Vincent Carelli criaram a instalação inédita O Brasil dos índios: um arquivo aberto (2016), que configura um espaço de imersão em imagens, gestos, cantos e línguas de vinte povos distintos, entre eles os Xavante, Guarani Kaiowá, Fulni-ô, Gavião, Krahô, Maxakali, Yanomami e Kayapó. Reunidos por sua força discursiva e imagética, os trechos constituem mais um ponto de resistência coletiva às tentativas de invisibilidade e apagamento de grupos indígenas e provocam uma ampla reflexão sobre alteridade e convenções de perspectivas culturais.

Wilma Martins, 1934, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Vive no Rio de Janeiro, Brasil. A artista relaciona-se com seu entorno por meio de desenhos, gravuras e pinturas. Na série Cotidiano (1975-1984), seu processo de trabalho consiste em vários estágios, nos quais desenhos e pinturas vêm de e voltam para seus cadernos, como revisitações – ora os desenhos são esboços de pinturas posteriores, ora são registros de uma composição que já nasceu na tela. Os espaços domésticos, aparentemente ordinários, são habitados por animais silvestres e cobertos por matas e rios que “esparramam-se” ou surgem por frestas do dia a dia, como uma pia repleta de louça e as dobras de um cobertor. Jogando com escalas e cores, a artista torna visível a coexistência de universos supostamente incompatíveis. Em sua obra, o que poderia estar à espreita no inconsciente emerge para atravessar inesperadamente a rotina e ocupá-la com uma atmosfera insólita. Morando no Rio de Janeiro desde a década de 1960, Martins contempla vistas a partir de sua casa, hábito que cultiva para criar as telas das paisagens. (Com assessoria da Secretaria de Cultura e Bienal)

32ª Bienal - Itinerâncias: Cuiabá

15 de maio a 9 de julho

Rua Antônio Maria, 251 - Praça da República, Centro Norte - Cuiabá - MT

ter-sex: 8h-19h; sáb, dom e feriados: 10h-18h

T: (65) 3613-9240/ 0232/ 0233

32bienalmt@cultura.mt.gov.br

Entrada Gratuita

 

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