02 de maio de 2017 - 11:34

Após homenagens, corpo de Belchior é sepultado em Fortaleza

Cantor que marcou a produção musical brasileira durante a ditadura morreu no domingo depois de passar dez anos sem localização certa

da Redação

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Wellington Macedo/Futura Press/Estadão Conteúdo

Velório do cantor Belchior em Fortaleza

 

O corpo do cantor Belchior foi sepultado na manhã desta segunda-feira (2) em Fortaleza, no cemitério Parque da Paz, informou a Agência Brasil. Natural de Sobral, no noroeste cearense, ele morreu no Rio Grande do Sul no último domingo (30) após passar dez anos sem localização certa.

O corpo do músico foi trasladado para o Ceará e velado no domingo (1º) pela manhã em Sobral e, durante a tarde e a noite, na capital cearense, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Por volta de 7h desta segunda (2), houve uma missa no centro cultural, e o caixão com o corpo do cantor seguiu em cortejo pelas ruas de Fortaleza em um carro do Corpo de Bombeiros até o cemitério.

Repetindo as homenagens prestadas durante os velórios que reuniram milhares de pessoas, fãs e amigos cantaram seus maiores sucessos no cemitério. O Parque da Paz é o mesmo local onde o pai e a mãe de Belchior - que morreram durante o período em que ele ficou recluso - estão enterrados. O sepultamento foi restrito aos parentes.

Canções e poesia
O cantor nasceu em Sobral, Ceará, em 26 de outubro de 1946. Depois de ser programador de rádio na cidade, se mudou para Fortaleza para estudar filosofia e humanidades. Ingressou no curso de medicina, mas abandonou a faculdade e passou a perseguir a carreira artística. Os grandes discos de Belchior são os cinco primeiros, gravados entre 1974 e 1979.

Depois de um compacto em 1971, ele foi contratado pela Chantecler para o primeiro álbum, de repercussão modesta, em que a experimentação com a poesia concreta se destaca. Em Mote e Glosa, Belchior pergunta: "Você que é muito vivo me diga qual é o novo". Ele representava uma geração que pretendia romper com a MPB de maneira provocadora.

Com Alucinação (1976), Belchior chega ao auge criativo. O produtor Marco Mazzola, que teve de enfrentar a direção da PolyGram para conseguir fazer o disco, chamou grandes músicos de estúdio que entenderam a poética do cearense e sua estética sonora não convencional, que misturava Luiz Gonzaga e Bob Dylan.

Com arranjos de José Roberto Bertrami, canções como Velha Roupa Colorida e Como Nossos Pais, lançadas por Elis Regina, têm peso e força também sustentadas pelo instrumental. A partir daí, Belchior conquistou seu lugar. Naquele ano de 1976, poderia tanto cantar para a plateia popular de Silvio Santos à tarde e à noite fazer um show para universitários. Ele representava o homem do povo que, finalmente, estava onde queria.

O álbum seguinte, Coração Selvagem (1977), mantém o padrão do anterior, também sob a batuta de Mazzola. Ainda mais interessante é Todos Os Sentidos (1978), que mostra um artista fascinado pelo advento da disco music em duas faixas, Corpos Terrestres, com participação das Frenéticas, e Como Se Fosse Pecado. O grande hit, no entanto, foi Divina Comédia Humana. O Brasil inteiro cantou uma música que fazia referência ao poema de Dante Alighieri.

Finalmente, em Era Uma Vez Um Homem e Seu Tempo (1979), Belchior lança seu último grande sucesso popular, Medo de Avião. Mas também estão ali Pequeno Perfil de Um Cidadão Comum, feita com Toquinho, e Comentário a Respeito de John, escrita com José Luiz Penna.

Nos anos 1980, seus trabalhos têm menor repercussão, mas não são menos instigantes. Cenas do Próximo Capítulo (1984) flerta descaradamente com a new wave e Melodrama (1987) mostra um compositor em forma, em um álbum elogiado à época pela imprensa. A partir de 1995, com Um Concerto Bárbaro, Belchior começa a regravar sua obra indiscriminadamente, em projetos repetitivos.

Abandono da família e sumiço 
Em 2006, Belchior deixou a mulher, Ângela Margareth Henman Belchior, com quem vivia em São Paulo, e os dois filhos. Ele também abandonou dois carros, que até o ano passado acumulavam dívidas de mais de R$ 200 mil.

A última entrevista conhecida do cantor foi dada ao Fantástico, da TV Globo, em agosto de 2009 - talvez sua última aparição pública. Na ocasião, ele negou o desaparecimento e se recusou a falar sobre as dívidas no Brasil, que agora também envolviam pensões para os filhos. Na mesma reportagem, Belchior declarou que vivia em São Paulo e também prometeu um disco de inéditas. "Com certeza eu vou de volta para a minha cidade amada, para os lugares mais queridos do Brasil, vou fazer show, vou soltar um disco com canções novas", disse. "Eu sempre estou voltando para o Brasil", concluiu.

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