21 de fevereiro de 2017 - 15:29

Sufoco para ligar para os parentes

Em 1982 dormi afundado num atoleiro, em profunda guerra com os mosquitos da região

Onofre Ribeiro

Antes que algumas estórias desapareçam, é preciso contá-las e recontá-las. Até 1973, Mato Grosso era muito isolado. Surgira em maio o asfalto ligando Cuiabá a Goiânia e a Campo Grande. Começava a ocupação do médio norte, do nortão e do noroeste de Mato Grosso, assim como do nordeste, de Barra do Garças para cima. Em 1976, cheguei a Mato Grosso. Fui a Sinop e conheci um acampamento construído de casas de madeira entre algumas ruas poeirentas. Pioneiros, na sua maioria paranaenses, acreditavam num futuro que só eles viam e percebiam. Na seca, a poeira subia a meio metro de altura e parecia nuvens de talco marrom. O solo amazônico é diferente.

Na chuva, a lama arrasava o solo frágil e tudo virava um atoleiro sem fim. Em 1982 dormi dentro de uma pick-up C-10 afundado num atoleiro, em profunda guerra com os mosquitos da região. Eles pareciam soldados defendendo o seu território contra o bicho-homem que invadia o seu mundo. Dormimos com fome, acordamos com fome e passamos fome o dia inteiro. Ninguém subia, ninguém descia. Um milagroso trator de uma fazenda nos arrastou e saímos ziguezagueando no campo tentando nos livrar da lama. Atolamos muitas outras vezes antes de chegarmos a Nobres.

Como nós, dezenas de caminhões levando combustíveis, comida e outros materiais também dormiam atolados por semanas inteiras naquele pantanal amazônico de lama. Pior. Mais acima, Alta Floresta sofria mais ainda, 320 quilômetros ao norte, dentro da portentosa floresta amazônica. Gente dali quando queria telefonar para os parentes, precisava enfrentar a rodovia BR-163, construída em 1976, chegar a Cuiabá e gritar feito doido nas cabines telefônicas da Telemat, a empresa telefônica de então.

Depois da enorme luta pra vencer os 500 quilômetros desde Sinop, os paranaenses pioneiros passavam o dia ou a noite sentados na frente de cabines da Telemat esperando a sua vez de gritar para os parentes distantes. Fila imensa. Chegavam ao balcão, davam o nome e o número desejado e escutavam a sentença: “senta e aguarda a chamada”. Dia inteiro ali, pregado, porque podia sair até para comer e ser chamado. Voltava para o fim da fila. Outra espera. Finalmente, às vezes, no fim do dia a moça da recepção gritava: “Sr. Fulano, ligação de Palotina na cabine três”. Não tinha segredos. Todo mundo gritava as suas falas. Uma solidariedade silenciosa entre todos como um pacto de sofrimento e de saudade dos parentes: pais, irmãos, filhos, esposa, namoradas...

Compras no comércio, o descanso hospedado nuns hoteizinhos do centro, para pegar de novo a longa estrada. Cheios de notícias subiam os 500 quilômetros até Sinop ou mais, para outras regiões de colonização. Dois meses depois, a saudade os empurrava norte-sul para gritar de novo com os seus amados distantes.

Em 1980, veio a telefonia lá em Sinop e em Alta Floresta. Em 1984, o asfalto até Santa Helena, pertinho de Alta Floresta. Lá também chegou em 1986. O posto da Telemat fechou na Praça Rachid Jaudy, em Cuiabá, e virou uma loja de eletrodomésticos populares. Quem sabe nas suas paredes gastas ainda ecoem os gritos de solidão e de saudades de pioneiros. Seus filhos hoje falam com o mundo através de smartphones. A Telemat acabou. E quando querem, seus descendentes descem de jatos na direção do Sul do país. Acho que nem a saudade resistiu. Morreram junto com a maioria daqueles pioneiros das longínquas décadas de 1970 e de 1980. Pioneiros restam alguns, em velhas fotos penduradas na parede. Se tanto... Foram-se com a sua história!

Assinatura Coluna Onofre