08 de maio de 2017 - 15:40

Pela memória de Dante de Oliveira

Onofre Ribeiro

Estive em Brasília naquela terça-feira, 25 de abril de 1984 quando o país pegava fogo pela votação da nacionalíssima Emenda das Diretas-Já. Vivenciei ali o clima da terra tremendo. Queda de braços entre a voz das ruas, o Congresso e o governo dos militares.

A emenda ganhara as ruas. O regime militar cansara a população. Teve seus momentos altos, mas naquele ano a economia ia de mal a pior. Inflação altíssima, crise internacional do petróleo, empréstimos externos e uma imensa crise com o Fundo Monetário Internacional (FMI), grande credor do Brasil. O deputado novato, filiado ao PMDB, era um mato-grossense de 28 anos que se notabilizou pela conhecida “Emenda das Diretas-Já”.

Só para recordar. O  regime militar governava há 20 anos e pregava uma lenta e gradual redemocratização. Mas não previa datas. As Forças Armadas estavam divididas entre a linha que queria a redemocratização e a linha dura contrária. O presidente de então era o general João Baptista Figueiredo. Tanto que a Lei da Anistia fora negociada e aprovada em agosto de 1979 na direção da pacificação nacional entre civis e militares.

Um deputado pouco conhecido de Mato Grosso avançou com uma pouco provável emenda pedindo eleição para presidente da República já nas eleições de 1985.

Ele me contou que ao chegar à Câmara dos Deputados, aos 27 anos, pesquisou e não encontrou nenhuma proposta de emenda à Constituição propondo eleições diretas no país. A Constituição vigente, de 1967, previa eleições indiretas pra presidente da República, governadores, prefeitos das capitais e municípios em áreas consideradas de segurança nacional. Dante percorreu a Câmara até obter o número de assinaturas. Contou que o consideraram um ingênuo. Chegou a pedir assinatura de garçom engravatado pensando que era deputado federal.

Finalmente, o poderoso presidente do PMDB, deputado Ulysses Guimarães, assumiu a proposta modesta nascida no escritório do talentoso advogado Dr. Paraná, pai de Dante. Comícios imensos nas capitais. Setecentos mil na Praça da Sé, em São Paulo. O país se polarizou em torno da emenda das Diretas Já. A cantora Fafá de Belém cantou o Hino Nacional num tom cívico, fugindo do tradicional tom militar. O país tremia de emoção. Discursos inflamados. O mundo artístico e cultural brasileiro subia nos palanques dos monumentais comícios. A imprensa, mesmo sob forte pressão do governo, pendia para as Diretas-Já.

Dante passou a ser uma personalidade nacional. A emenda foi derrotada na Câmara na votação do dia 25 de abril de 1984. O país estava inflamado querendo o fim do regime dos militares.

O ano de 1984 terminou com confronto aberto entre as facções militares redemocratizantes e a linha dura contrária. Muitos episódios de terrorismo. Finalmente em novembro de 1984, sete meses depois, o Congresso Nacional elegeu um presidente civil ainda pelo sistema indireto em que os parlamentares eram os eleitores. Tancredo Neves elegeu-se depois de enormes negociações com a cúpula militar. Não houve traumas na transição militar para civil. Tancredo Neves adoeceu no dia da posse e morreu sem ocupar o cargo de presidente da República pelo qual tanto lutou. Seu vice, José Sarney, assumiu por seis anos.

Por detrás, Dante de Oliveira entrou deputado e saiu estadista. Fez uma sólida carreira política. Em 2002 deixou o governo de Mato Grosso onde fora eleito e reeleito. Em 6 de julho de 2006, morreu em Cuiabá. Não ocupava mandato neste momento.

Necessário lembrá-lo porque sem a Emenda das Diretas-Já a redemocratização podia demorar muitos anos ainda. Com o povo na rua, prevaleceu o que Ulysses disse em tom profético: “É preciso ouvir a voz rouca das ruas”. Sem ela faltaria o elo mais importante da democracia. 

E a História segue a sua longa trajetória...

Assinatura Coluna Onofre