06 de março de 2017 - 15:02

Eu, bois e boiadas

Onofre Ribeiro

Nasci em fazenda de café e de gado. No interior de Minas Gerais. Faz tempo. A convivência com o boi era inevitável. Andávamos a pé por aqueles trilhos nas invernadas. Lá sempre tinha bois pastando. Mas minha convivência foi mesmo com os bois de carro do meu avô materno, Zezinho Santana. Até lá pelos anos 50 o transporte de cargas era feito em carros de boi. Aparentemente, o carro e os bois que o puxam são coisa simples. Engano. Uma engenharia complicada.

Primeiro, o treino dos bois leva muito tempo. Eles formam pares, as juntas, e precisam ter temperamentos semelhantes pra se dar bem. A dupla da frente é chamada de bois de guia. Os de trás são os bois de coice. Esses precisam ser mais fortes por causa do peso do carro e da carga que se assenta sobre eles. Por mais que ele se distribua entre os demais, esses pegam mais peso. No meio, vão muitas parelhas, de acordo com o peso a ser transportado. Meu avô tinha seis juntas de dois bois. Doze bois no total.

O que me atraía no carro de bois era a placidez dos animais nas suas jornadas. Passo lento, balanço da cabeça, olhar resignado. Lá atrás o carro tinha poucas peças móveis. Um eixo de madeira, em geral jacarandá duríssimo, e dois encaixes chamados de cocões, onde gira o eixo. Os carreiros lubrificavam os cocões com querosene mais carvão moído. Era para criar a sonoridade chamada de cantiga do carro de bois.

A cantiga sempre me fascinou. Ouvida de perto é um mantra. De longe é uma música triste e monótona que repete nota após nota infinitamente. Lembra o “ohm” dos mantras orientais.“Ohmmmmmmm”, produzido no atrito do eixo com os cocões na baixa velocidade. Uma vez perguntei ao meu avô por que os bois tão fortes e violentos se deixavam tocar naquela mansidão. Ele respondeu na sua sabedoria autodidata: “a cantiga do carro amansa a valentia deles”. Não entendi muito bem. Na nossa região havia muitos carros de bois. Em todos era a mesma cantiga. Mais tarde compreendi o poder amansador dos mantras até sobre os humanos.

Na minha adolescência vi pela última vez um carro de bois trabalhando. Marcou-me profundamente pelo contexto. Sentado debaixo de um enorme ipê roxo, florido no mês de julho, ajudava a família no trabalho com a lavoura de café. Estudava o curso ginasial. Tinha acabado de ler o livro “Inocência”, de Alfredo de Taunay. Uma estória triste e sofrida.

Tocou muito o meu coração. Sentado ali, sozinho depois de almoçar, vi lá no outro lado, numa encosta, um carro de boi descendo. O som distante da sua cantiga encontrou no meu coração a melancolia de Inocência e produziu uma poderosa química de dor. Assisti, à distância, o carro descer a encosta e parar na lavoura de milho. Lentamente o carreiro que tocava o carro, e o candieiro que ia na frente puxando o caminho, carregaram o milho. De cá vi a manobra para iniciar a subida na serra. Lenta procissão de bois e milho. A cantiga profunda e barítona do passo lento bagunçou a minha alma. Uma melancolia que não conhecia.

Passo a passo o carro dobrou e encosta e o som diminuindo, esvaziando a minha cabeça. Fiquei ali perdido em divagações de pouca importância. Encerrava naquele momento a minha convivência com carros de bois. Aos poucos eles sumiram das encostas e da vida real. Logo, mudei-me para Brasília. A cantiga permanece como mantra na minha lembrança. Tal e qual o berrante, outro mantra de longa profundidade....!

Assinatura Coluna Onofre