06 de fevereiro de 2018 - 11:16

Carnaval, carnavais...

Onofre Ribeiro

Onofre Ribeiro

Pra mim, carnaval tem gosto de rádio.

Lá pelo começo dos anos 1950, na perdida cidadezinha de Minas, Campos Altos, por sua vez perdida entre serras, meu avô Zezinho Santana comprou um aparelho de rádio. Nunca perguntei e por isso nunca soube de onde veio a ideia. Ali, havia um ou outro rádio. Não era da cultura. Ainda mais de um matuto como ele. O fato é que ele ganhou na Loteria Mineira e comprou na Casa Domingos, que ainda existe, uma “radiola Philips”. Era um móvel de mesa com uma tampa em cima onde existia um imponente toca-discos para os famosos discos de 78 rotações.

Ali começava o meu destino de escutar informações e descobrir que havia mundo muito maior do que enxergavam os nossos olhos pobres paroquiais. Ali descobri noticias, músicas, teatro, radionovelas e o carnaval. Aliás, as marchinhas de carnaval. Um mês antes o rádio se enchia de marchinhas e as pessoas entravam na onda.

Eram marchinhas inocentes como “Oh, Jardineira”, “Bandeira Branca”, “Sassaricando”, “Cabeleira do Zezé”, “Mamãe eu quero”, “Chiquita Bacana”, “Aurora”, ”Turma do funil”, “Me dá um dinheiro aí”, “As Pastorinhas”. Tantas. Tantas mais.

O tom dos bailes mesmo nos dois clubes da cidade era dado pelas marchinhas tocadas pelas duas bandas locais. Mas o “lança-perfume Rodo” é quem dava o tom da animação. Cheguei a conhecê-lo e a experimentá-lo lá pelos 16 anos. Trem bão, Sô! Dava um barato instantâneo. Era spray que se espirrava no lenço e se cheirava longamente. Éter quase puro. Depois de várias cheiradas dava um barato permanente. Uma animação firme. Entre as suas virtudes, mais do que o barato, é que o lança-perfume animava as recatadas moças de então a permitirem avanços impensados fora do embalo.

De repente um casal sumia do salão e voltava com um “consentido” das vigilantes mães, tias e avós. O “trato” era que a fuga fosse rápida. O bastante pra um amasso sem maiores consequências. Duas fugas já não era permitido numa única noite!

Mas tinha dois clubes na cidade. Um, chamado de “Clube Social”. Frequentado por gente de bem, dizia-se. O outro, o “Curinga”, frequentado por todo mundo. No fundo todo mundo sabia que logo que acabasse o baile no Clube Social todos corriam pro “Curinga”. Lá se bebia pinga, “Vermute Cinzano”, “Rabo de Galo” e “Traçado”. Esses dois eram misturas de cachaça com outras bebidas. Coisa pra derrubar mesmo! As moças pulavam a janela depois que os pais dormiam e os rapazes as esperavam no clube mais democrático da cidade. Pretos, brancos, novos, velhos dividiam a cumplicidade e o resto da noite.

Muitos músicos do “Clube Social”, terminavam a noite lá, tocando as marchinhas com a malícia que elas sugeriam. Longe dos olhos vigilantes de pais, mães, tias e avós. Estórias pra contar depois do carnaval eram as dali. Num vocabulário muito mais contido e conservador, quem pegava quem contava comedido...

Pelos famosos canais do fuxico, o padre Clemente de tudo no dia seguinte e esgoelava no púlpito sermões ameaçadores de chamas do fogo do inverno. Mocinhas piedosas com seus véus brancos cobrindo a cabeça prometiam no confessionário não repetir o “Curinga”. Mas quem aguentava? A cidade pra lá de pacata e alegria só uma vez no ano? Não dava outra. À noite, depois do baile no Clube Social, lá iam elas e os rapazes em busca da aventura que os animaria o resto do ano.

Na minha infância eu não ia a bailes. Mas ouvia o som que vinha de longe. Depois escutava as estórias contadas pelo meu tio Zé Morais. No mais, o rádio entrava e saía da minha vida pelas marchinhas tocadas “até arranhar o disco”, no rádio da minha avó Alvina. O lado triste da estória é que me mudei de lá antes de poder frequentar o “Curinga” que funcionou muito anos depois do Clube Social fechar as portas...

Assinatura Coluna Onofre