22 de setembro de 2017 - 06:00

O vício em pornografia e a geração que não consegue fazer sexo real

Qual será o efeito dessa busca desenfreada pelo gozo que dominou essa geração? As nossas vidas sexuais estão melhores ou piores?

Juliana Arini

, da Redação

Nunca foi tão fácil termos acesso a pornografia. Para penetrar nesse novo turbilhão de voyeurismo pós-moderno basta um smartphone e uma conexão com a internet. Em segundos, mais de 76,2 milhões de sites com imagens de pessoas fazendo sexo das mais diversas formas, gêneros, idades, cores e sabores estarão a disposição.

E o melhor, ou pior, as pessoas podem assistir e partilhar esses filmes e imagens no mais completo anonimato. Mas qual será o efeito dessa busca desenfreada pelo gozo?

Há tempos um amigo confessou em uma roda de conversa, depois de algumas cervejas, muito angustiado, que não conseguia sentir prazer com a namorada. Por mais que se esforçasse não conseguia atingir um orgasmo simplesmente fazendo sexo com a moça, que se frustrava a cada encontro. Ambos eram jovens, tinham uma certa obsessão por cuidados estéticos com o corpo e estavam, aparentemente, apaixonados. Mas, mesmo assim, o sexo não fluía e ela seguia cada vez mais frustrada.

Meses depois surgiu a raiz do problema. Ele confessou para a namorada que preferia masturbar-se assistindo vídeos da internet ao sexo real. A relação acabou mal, ele foi parar na terapia e descobrir que estava viciado em pornografia.

Acompanhei por algumas semanas ele reclamando que era quase impossível ficar longe dos vídeos, que chegavam principalmente pelos grupos de redes sociais. Fora a “zoação” dos amigos do sexo masculino que associam o compartilhamento desse tipo de conteúdo a demonstração de virilidade masculina.

O filme “Como não perder essa mulher” (Don Jon, em inglês) traz uma história semelhante. Joseph Gordon-Levitt é o protagonista Johnny, um jovem vaidoso, viciado em pornografia e que acredita que isso não era um problema. Para ele, o sexo só seria “bom” quando encontrasse uma mulher “perfeita”.

Aí surge Bárbara, uma linda loira, sensual e mimada, protagonizada por Scarllet Johansson, a musa de toda uma geração. Eles engatam um romance e depois de muitos caprichos da moça, finalmente acontece o grande momento do sexo.

A cena em si é um desastre. A falta de sintonia do casal incomoda. O sexo é frio, sem emoção e Johnny não consegue satisfazer-se nunca. Ele rapidamente cai no tédio e retorna para a sua compulsão por assistir sexo na internet.

Não demora muito para a namorada invadir o computador do companheiro e descobrir que está sendo traída com o pornô virtual. O namoro acaba e Johnny volta com força ao seu velho vício.

Um desfecho comum principalmente entre os mais jovens. São centenas de relatos sobre como o excesso de pornografia virtual tem acabado com a vida sexual real de muitos. E isso não é só entre os homens, ocorre também com as mulheres.

No Brasil,  33% dos acessos a grandes canais de pornografia são feitos por elas. No mundo, a média é de 25%. A maioria é formada por garotas de 18 e 24 anos.

Uma pesquisa da Centro de Psiquiatria da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, estudou o cérebro dos viciados em pornografia. E revelou que o estimulo gerado pelas cenas de pornografia gera reações cerebrais semelhantes às desencadeadas pelas drogas toxicodependentes. Apesar de não possuírem a mesma carga viciante dessas substâncias, o estudo é um alerta para repensarmos a forma como estamos lidando com o sexo.

O psiquiatra americano Gary Wilson até criou uma palestra no TED sobre os efeitos da pornografia no cérebro, embora seja considerado um radical por muitos, por defender a abstinência total, Wilson explora também os efeitos da prática na vida dos dependentes.

Entre os homens um dos grandes problemas é o excesso de masturbação. Parece até brincadeira da década de 1950, quando tocar-se era um tabu. Mas sim, a masturbação em excesso é um obstáculo ao sexo real e pode trazer danos. Isso porque a manipulação manual exagerada faz com que o homem perca a sensibilidade durante o ato do sexo. As pessoas também se condicionam a atingir o orgasmo com estímulos visuais que dificilmente serão possíveis durante o sexo real.

Fora que a percepção do corpo do outro para quem é viciado em pornô acaba distorcida, pois os atores de filmes estão bem distantes do aspecto das pessoas que você vai encontrar durante uma balada no mundo real.

Na verdade, a maioria das atrizes pornô sofrem doloridas cirurgias plásticas em todo o corpo para ficarem semelhantes a cópias (às vezes grotescas) de bonecas.

O tamanho do pênis também é um pré-requisito para os atores serem selecionados, o que fica muitos centímetros a frente do mundo real masculino.

E, apesar de não gostarmos de pensarmos na ideia, em grande parte dos casos, as pessoas que alimentam as mídias pornográficas não estão sentindo prazer real. Elas estão simulando! Fora os casos de tráfico de pessoas e toda uma indústria muito barra-pesada que está ligada a essas produções, que em muitos casos envolvem menores (sem falar na pedofilia, um capítulo a parte nesta discussão).

E, sim, para gravarem os pornôs com desempenho garantido, os homens também precisam tomar estimulantes sexuais. As mulheres às vezes saem machucadas das cenas, feitas na maioria sob uma perspectiva sexual masculina de dominação física, o que está anos luz do prazer real de uma mulher durante o sexo.

Outro dado incomodo é que o vício e a dor de uns torna-se o combustível do lucro de outros. De acordo com a publicação The Week, a indústria pornográfica movimenta, no mundo, US$ 97 bilhões. Em 2014, quase 12% dos site eram pornográficos e 35% dos downloads envolviam esse conteúdo. E, 20% dos homens confessam que acessam pornografia no meio do expediente de trabalho.

As mulheres também sofrem, principalmente pelas comparações com padrões irreais. É cada vez mais comum a procura por cirurgias corretivas dos órgãos sexuais, a labioplastia. O Brasil é o campeão mundial do procedimento, só em 2016, foram realizadas 23.155 cirurgias.

E em casos mais avançados a pessoa para de ter relações reais e passa apenas a se estimular apenas com cenas de vídeos, isolando-se de uma relação verdadeira com outro ser humano.

Entre as mais jovens, o problema pode ser maior, pois estão em processo de iniciação sexual. Muitos acabam absorvendo como real o que veem nos filmes e ficam como Johnny, o protagonista de “Como não perder essa mulher”, desconhecendo totalmente o próprio corpo e desejo.

Qual a solução? Jogarmos todas as conquistas da Revolução Sexual pela janela e voltarmos aos tempos anteriores ao Relatório Hite (1976 e 1981), quando mais da metade das mulheres pesquisadas nunca tinha atingido um orgasmo e a maioria não se tocava?

Nos aliarmos aos protestos dos ultra conservadores contra a expressão artística que traz a sexualidade e a pornografia como contestação na recente polêmica da exposição do Queer Museu, suspensa em Porto Alegre? Ou vamos censurar a internet e voltar a dizer aos adolescentes que a masturbação faz crescer pêlos nas mãos?

Dar a volta e seguir para o outro extremo da questão possivelmente não é a melhor resposta. Aos mais jovens o fundamental é encontrar uma conexão real com outro ser humano e conhecer o próprio corpo. E sim, parar de ser guiado por estímulos externos.

A masturbação é um ato demasiadamente humano e não pode tornar-se um tabu novamente. A própria pesquisadora Sheere Hite reconheceu em seus estudos a importância para que uma pessoa aprenda a sentir prazer, principalmente na fase de iniciação sexual.

O grande problema do vício no pornô virtual é o gatilho que ele cria. Ao viciarem em filmes, a pessoa deixa a própria libido e o prazer desfocado de si, e o torna dependente de uma cena externa. É como se estivéssemos trocando a comida de verdade pelo anúncio da embalagem de isopor.

Outro problema é relembrado pelo psiquiatra Jairo Bouer . “Toda vez que você tem um estreitamento do seu universo de prazer você fica mais limitado, e a dependência em pornografia traz exatamente essa limitação”, relatou em seu canal na internet ao ser questionado sobre o tema.

Descobrir que sexo tem mais a ver com sintonia, toque, carinho do que com um ideal “físico” foi a solução para Johnny. O final feliz do filme só acontece quando o rapaz encontra Esther, (Julianne Moore), alguém bem distante do que ele acreditava ser a mulher ideal.

A primeira cena de sexo entre eles é novamente um desastre. Mas, Esther acaba percebendo que o rapaz passa tempo demais vendo vídeos pornôs e aos poucos os dois se aproximam e ele simplesmente (re)aprende a fazer sexo real. E mais do que sexo, ele descobre coisas de sua personalidade que também estava negligenciando. Afinal, todo vício é uma fuga de algo errado em nossas vidas.

No fundo, o que todos que pesquisam o tema afirmam é que o problema não é a pornografia, mas o uso dela. Ninguém advoga para que o sexo volte para o puritanismo vitoriano, quando as pessoas mal conheciam os seus corpos. O que todos reforçam é que precisamos ter uma relação mais real com a sexualidade e menos virtualizada.

Segundo os terapeutas que tratam pessoas viciadas em sexo, usar pornografia é parecido com beber álcool. A maioria consegue tomar um drinque em segurança, porém o sinal de alerta deve soar quando o seu uso começa a ter consequências mais sérias e o leva a perder o interesse em outros compromissos.

Para quem ficou curioso, o meu amigo também teve um final feliz. Ao contrário do protagonista do filme, ele não encontrou outra companheira, mas voltou para a antiga namorada. A terapia também o ajudou, principalmente a descobrir que estava há anos em depressão por conta de questões de trabalho que nunca tinha percebido, afinal perdia muito tempo de sua vida real com o pornô virtual.

Biografia Juliana