20 de janeiro de 2017 - 10:27

Trump, "defensor da globalização"?

O que é preciso para que o mundo veja o novo presidente pela ótica do "copo meio cheio"?

por Marcos Troyjo

Agência Estado

Trump

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos

Guerra comercial, instabilidade emocional, populismo, tolerância com autoritarismo, inexperiência no mundo político. Todas essas noções fazem parte da "nuvem" Donald Trump e da presidência que se inicia. O Fórum Econômico Mundial que se reúne agora nos Alpes suíços projeta um enorme enorme ponto de interrogação sobre o que aguarda o cenário global nos próximos quatro anos.

A nova liderança norte-americana lança o mundo nas sombras da incerteza. Tradicionais parâmetros de política externa dos EUA para a Europa, Oriente Médio e Ásia-Pacífico parecem destinados ao abandono. Essa impressão foi reforçada na entrevista que Trump concedeu ao The Times britânico no início da semana. A desglobalização supostamente tem em Donald Trump seu mais importante proponente.

Inversamente, na terça-feira, dia 17, o presidente chinês Xi Jinping foi saudado por Davos como defensor da globalização. Tal mudança de posições — EUA insulares e China extrovertida — era inimaginável há apenas alguns poucos anos.

Sabemos que Donald Trump é um jogador. Gosta de blefar, de negociar sob cortinas de fumaça, de "chutar para cima" de modo a obter o melhor resultado possível. Nessa linha, de todas as intervenções feitas até agora em Davos, sem dúvida a mais surpreendente foi a de Anthony Scaramucci, ex-gestor de fundos que hoje ocupa lugar de destaque dentre os principais assessores de Trump.

Scaramucci, que chefiará o Escritório de Relações Públicas da Casa Branca, pôs Davos em parafuso ao argumentar que a globalização sairá fortalecida com o próximo presidente americano. Literalmente, sugeriu que "Trump representa uma esperança para o globalismo". A frase de Scaramucci está em diagonal oposição ao que seu chefe propagou durante a campanha. Mais especificamente, em seu discurso de nomeação como candidato republicano à Casa Branca, Trump defendeu: "o americanismo, e não o globalismo, será a nossa crença".

Ainda assim, Scaramucci relacionou uma série de tópicos em que, segundo ele, a opinião pública global não estaria lendo corretamente a mensagem que o futuro presidente dos EUA quer transmitir. Ou seja, o mundo não está vendo Trump pela ótica do "copo meio cheio". Vamos então a algumas das posições mais controvertidas de Trump e, de acordo com Scaramucci, como o cenário global em conjunto pode sair ganhando.

Nos tratados comerciais, Scaramucci contou à plateia de Davos que Trump está longe de ser um opositor do livre-comércio. A crítica do presidente eleito residiria no caráter "assimétrico" dos acordos. No segundo pós-guerra, os EUA — com o FMI ou o BIRD, o Nafta ou outorga da cláusula de nação mais favorecida ao comércio com a China — estariam trocando influência geopolítica por benefícios econômicos.

Como muitas das razões para a existência dessas iniciativas — a reconstrução da Europa pós-1945 ou comunismo como força geopolítica — deixaram de figurar no tabuleiro, caberia portanto reestruturá-las de modo a harmonizar as condições de competição não apenas dos EUA, mas também de outros países.

No início da semana, Trump disse em diferentes entrevistas que a Otan está "obsoleta", que as razões de sua criação relacionadas à Guerra Fria deixaram de existir. Para Scaramucci, isso não significa que Trump deseja abandonar a Europa à sua própria sorte, mas sim revela o pedido de atualização da Aliança de modo a que ela possa também combater ameaças como o terrorismo internacional.

A esses argumentos de Scaramucci podem somar-se uma série de outras posições de Trump que, em princípio, poderiam ajudar a globalização. O cenário global teria a ganhar com instituições de Washington (FMI, Banco Mundial) reformadas? Sem dúvida. A ONU precisa de atualização de modo a refletir novas correlações de poder e capacidade de contribuição orçamentária? Claro. O mundo se tornaria mais seguro se Washington e Moscou cooperassem em áreas como a luta contra o terrorismo? Em tese, sim. O comércio internacional se tornaria mais justo se o governo chinês oferecesse menos incentivos e escudos de proteção a suas empresas de economia mista? Muito provavelmente.

Para que o mundo possa enxergar Trump pelo "copo meio cheio", além de apontar incoerência e deslealdade em outros países, a nova administração teria de estar também disposta a mexer nas muitas assimetrias patrocinadas pelos próprios EUA. Essas passariam por rever o inquestionável protecionismo na esfera agrícola ou a politica de incentivo à inovação industrial disfarçada de orçamento do Pentágono — bilionários recursos que ajudam a manter os EUA na vanguarda dos setores de alta tecnologia. E, no limite, para ajudar a globalização, como Scaramucci buscou vender à elite de Davos, Trump, além de seu conhecido acervo crítico, precisa apresentar ao mundo uma agenda propositiva. Disso, até agora, ninguém tem notícia.

Assinatura Marcos Troyjo