24 de janeiro de 2017 - 12:02

Começa a turbulenta era Trump

por Marcos Troyjo

Facebook/Reprodução

Donald Trump 2

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos

Títulos de dois influentes livros sobre economia global nos últimos 40 anos —"A Era da Incerteza", de J.K. Galbraith, e "A Era da Turbulência", de Alan Greenspan— adaptam-se perfeitamente à etapa que agora se inicia. A julgar pelo conteúdo e estilo de sua campanha e o convulsionado período como presidente eleito, o que Trump oferece ao mundo nos primeiros movimentos de seu governo é um estoque de incerteza e turbulência.
 
"Fazer a América grande de novo", mote da candidatura, significará romper com padrão de política externa estabelecido quando, ao final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os EUA alçaram-se à condição de superpotência líder —a "Pax Americana". Para tal inflexão, o inquilino da Casa Branca terá de transformar em ações concretas sua denúncia do quadro internacional do comércio e a própria relação que o presidente dos EUA mantém com a elite global.
 
O comércio internacional, em sua atual configuração, é para a retórica trumpista o que a URSS foi para o marketing político de Reagan —um "Império do Mal". A deslealdade de parceiros —e a incompetência dos negociadores americanos desde o fim da Guerra Fria— teriam permitido um "mundo plano" apenas àqueles que querem exportar para os EUA. O México se valeria do NAFTA para "roubar" empregos americanos. A China, com seu capitalismo de Estado, manipularia câmbio e custos visando ao declínio do setor manufatureiro nos EUA.
 
Para Trump, supostas vantagens geopolíticas de uma maior interdependência econômica não estão mais surtindo efeitos positivos para os EUA. Na mesma linha, a elite global —burocratas encastelados em instituições "desatualizadas" como FMI, ONU, Otan e OMC— perdeu a capacidade de corrigir desequilíbrios da ordem mundial.
Incerteza e turbulência resultam portanto numa equação com dois eventuais desfechos.
 
O primeiro: a América se fecha para o mundo —isolamento comercial, populismo nacionalista, diminuição de presença geoestratégica, entretenimento para uma opinião pública interna conflagrada e imbecilizada.
 
O segundo: os EUA, ainda que de modo tumultuado, ajudam a reinventar a globalização.
Guerra comercial, instabilidade emocional, populismo, tolerância com autoritarismo, inexperiência no mundo político. Todas essas noções fazem parte da "nuvem" Donald Trump e da presidência que se inicia no próximo dia 20.
 
O Fórum Econômico Mundial que se reuniu em janeiro deste anos nos Alpes suíços projetou um enorme ponto de interrogação sobre o que aguarda o cenário global nos próximos quatro anos. A nova liderança norte-americana lança o mundo nas sombras da incerteza. Tradicionais parâmetros de política externa dos EUA para a Europa, Oriente Médio e Ásia-Pacífico parecem destinados ao abandono.
 
A desglobalização supostamente tem em Donald Trump seu mais importante proponente. Inversamente, o presidente chinês Xi Jinping foi saudado por Davos como defensor da globalização. Tal mudança de posições —EUA insulares e China extrovertida— era inimaginável há apenas alguns poucos anos.
 
Sabemos que Donald Trump é um jogador. Gosta de blefar, de negociar sob cortinas de fumaça, de "chutar para cima" de modo a obter o melhor resultado possível. Nessa linha, de todas as intervenções feitas até em Davos, sem dúvida a mais surpreendente foi a de Anthony Scaramucci, ex-gestor de fundos que hoje ocupa lugar de destaque dentre os principais assessores de Trump.
 
Scaramucci, que chefiará o Escritório de Relações Públicas da Casa Branca, pôs Davos em parafuso ao argumentar que a globalização sairá fortalecida com o próximo presidente americano. Literalmente, sugeriu que "Trump representa uma esperança para o globalismo".
 
A frase de Scaramucci está em diagonal oposição ao que seu chefe propagou durante a campanha. Mais especificamente, em seu discurso de nomeação como candidato republicano à Casa Branca, Trump defendeu: "o americanismo, e não o globalismo, será a nossa crença".
 
Ainda assim, Scaramucci relacionou uma série de tópicos em que, segundo ele, a opinião pública global não estaria lendo corretamente a mensagem que o futuro presidente dos EUA quer transmitir. Ou seja, o mundo não está vendo Trump pela ótica do "copo meio cheio".
 
Vamos então a algumas das posições mais controvertidas de Trump e, de acordo, com Scaramucci, como o cenário global em conjunto pode sair ganhando.
 
Nos tratados comerciais, Scaramucci contou à plateia de Davos que Trump está longe de ser um opositor do livre-comércio. A crítica do presidente eleito residiria no caráter "assimétrico" dos acordos. No segundo pós-guerra, os EUA, com o FMI ou o BIRD, o Nafta ou outorga da cláusula de nação mais favorecida à China, estaria trocando influência geopolítica por benefícios econômicos.
 
Como muitas da razões para a existência dessas iniciativas —como a reconstrução da Europa pós-1945 ou comunismo como força geopolítica— deixaram de figurar no tabuleiro, caberia portanto reestruturá-las de modo a harmonizar as condições de competição não apenas dos EUA, mas também de outros países.
 
Trump disse em diferentes ocasiões que a Otan está "obsoleta", que as razões de sua criação relacionadas à Guerra Fria deixaram de existir. Para Scaramucci, isso não significa que Trump deseja abandonar a Europa à sua própria sorte, mas sim revela o pedido de atualização da Aliança de modo a que ela possa também combater ameaças como o terrorismo internacional.
 
A esses argumentos de Scaramucci podem somar-se uma série de outras posições de Trump que, em princípio, poderiam ajudar a globalização.
 
O cenário global teria a ganhar com instituições de Washington (FMI, Banco Mundial) reformadas? Sem dúvida. A ONU precisa de atualização de modo a refletir novas correlações de poder e capacidade de contribuição orçamentária? Claro.
 
O mundo se tornaria mais seguro se Washington e Moscou cooperassem em áreas como a luta contra o terrorismo? Em tese, sim. O comércio internacional se tornaria mais justo se o governo chinês oferecesse menos incentivos e escudos de proteção a suas empresas de economia mista? Muito provavelmente.
 
Para que mundo possa enxergar Trump pelo "copo meio cheio", além de apontar incoerência e deslealdade em outros países, a nova administração teria de estar também disposta a mexer nas muitas assimetrias patrocinadas pelos próprios EUA. Essas passariam por rever o inquestionável protecionismo na esfera agrícola ou a politica de incentivo à inovação industrial disfarçada de orçamento do Pentágono —bilionários recursos que ajudam a manter os EUA na vanguarda dos setores de alta tecnologia.
 
E, no limite, para ajudar a globalização, como Scaramucci buscou vender à elite de Davos, Trump, além de seu conhecido acervo crítico, precisa apresentar ao mundo uma agenda propositiva. Disso, até agora, ninguém tem notícia.
 
Se o caminho adiante é o do isolacionismo, quatro anos de Trump podem ser mascarados por uma economia herdada de Obama que, com baixo desemprego e crescimento razoável para um país da OCDE, não vai tão mal. E, no curto prazo, os EUA podem ainda beneficiar-se da combinação (matematicamente insustentável) de desoneração tributária e expansão dos investimentos governamentais em infraestrutura —coração da "Trumponomics".
 
Mas o desmantelamento das redes globais de valor será, em horizonte não distante, devastador para os EUA, que têm mais multinacionais que qualquer outro país.
A "vingança da globalização" virá quando perda de eficiência e custos altos de produção precipitarem inflação e balanços patrimoniais menos robustos para empresas americanas de atuação global.
 
Nessa projeção, "guerras comerciais" são o menor dos problemas. Confrontos em outras frentes, onde nacionalismo dá as mãos ao militarismo, passam a ser plausíveis.
 
Torçamos que, com retórica ofensiva a comércio e elites globais, Trump esteja apenas querendo "trucar" o mundo. Se servirem para tornar as trocas internacionais menos assimétricas e elites mais dispostas a iluminar o lado escuro da globalização, suas muitas grosserias serão esquecidas.
 
Tal cenário é possível, mas pouco provável. Chance maior é que a administração Trump, com versão repaginada de "pão e circo", seja apenas um "junk government". Emoções não faltarão. Hora de apertar os cintos e cruzar os dedos.
 
Assinatura Marcos Troyjo