06 de fevereiro de 2018 - 11:05

Jovens de mãos erguidas para estrangular idéias

Fernando Henrique Leitão

A máxima de Nelson Rodrigues “Jovens, envelheçam!” deveria ser o cumprimento padrão a se agraciar todo jovem, especialmente aqueles que se encontram na faculdade. Seria um leve antídoto quase como aquele dado pelo escravo que sussurrava aos ouvidos dos imperadores romanos durante um triunfante desfile militar após uma conquista gloriosa quando colhia o louro da vitória: “lembra-te que és mortal!”. Quem sabe assim, recolocando a ordem natural, a juventude soberba e envaidecida aprendesse a conter mais rapidamente seu mau espírito revolucionário e sem Norte.

Hoje recordei uma excelente passagem do romance A Cidade e as Serras, escrito por um Eça de Queirós já maduro e sem a sanha juvenil de melindrar a todos que se mostrava n’O Crime do Padre Amaro, A Tragédia da Rua das Flores e O Primo Basílio. Eça, como quase todo jovem, teve consigo aquela impetuosidade obtusa de uma crítica perene e vazia a tudo e todos sem, no entanto, ter propostas reais de mudanças frente aos vitupérios que lançava e às ofensas que causava; tampouco notar que por pior que seja o mundo à sua volta, foi o melhor que se conseguiu criar com muito esforço, suor e sangue ao longo de eras. Felizmente ele, como quase todos os seres humanos normais, amadureceu com o avanço da idade e reconheceu pelos seus escritos posteriores os equívocos naturais da juventude.

O excelente A Cidade e as Serras traz um confronto cada vez mais evidente entre as modernidades das cidades grandes e a frugalidade campestre. Um dos personagens é Zé Fernandes, um homem rústico do interior de Portugal do século XIX que se sente desconfortável na Paris de então – já conhecida por seus modernismos, vícios, decadência moral e revoluções.

Ao fim do livro, Zé Fernandes volta a Paris e, ao caminhar pela cidade, chega à famosa Universidade de Sorbonne, onde se depara com uma cena de agressão por uma turba de alunos ao seu professor; é como um prenúncio do espírito do “é proibido proibir”, manifestado no fatídico Maio de 1968 na mesma capital gaulesa e na mesma universidade. O humilde, sábio e experiente Zé, repleto do bom senso comum que parece cada vez mais escasso, toma as dores do professor agredido frente a uma multidão de jovens presunçosos e irascíveis e se dá a seguinte cena:

“Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual, mergulhei no meu doce bairro Latino, evoquei, diante de certos cafés, a memória da minha Nini; e, como outrora, preguiçosamente, subi as escadas da Sorbona. Num anfiteatro, onde sentira um grosso sussurro, um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das instituições da Cidade Antiga. Mas, mal eu entrara, o seu dizer elegante e límpido foi sufocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troça bestial, que saía da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das Escolas, Primavera sagrada, em que eu fora flor murcha. O Professor parou, espalhando em redor um olhar frio, e remexendo as suas notas. Quando o grosso grunhido se moderou em sussurro desconfiado, ele recomeçou com alta serenidade. Todas as suas idéias eram frias e substanciais, expressas numa língua pura e forte, mas, imediatamente, rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de galo, pôr entre magras mãos, que se estendiam levantadas para estrangular as idéias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola dum macfarlane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, pingando endefluxado. Perguntei ao velho:

-Que querem eles? É embirração com o professor... é política?

O velho abanou a cabeça, espirrando:

-Não... É sempre assim, agora, em todos os cursos... Não querem idéias... Creio que queriam cançonetas. É o amor da porcaria e da troça.

Então, indignado, berrei:

-Silêncio, brutos!

E eis que um abortozinho de rapaz, amarelado e sebento, de longas melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me berra:
-Sale Maure! (“Mouro imundo!”)

Ergui o meu grosso punho serrano – e o desgraçado, numa confusão de melenas, com sangue pôr toda a face, aluiu, como um montão de trapos moles, ganindo desesperadamente, enquanto o furacão de uivos e cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzara os braços, esperando, com uma serenidade simples.

Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; [...]”

Além da lição dada ao rapazote atrevido, salta aos olhos a descrição da turba em “gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troça bestial”; mais ainda, vê-se uma pessoa expor idéias “frias e substanciais, expressas numa língua pura e forte” e que diante delas “imediatamente, rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de galo, pôr entre magras mãos, que se estendiam levantadas para estrangular as idéias”.

É ou não um retrato da mesma conduta praticada hoje por muitos jovens em passeatas, greves, manifestações? Diante de idéias contrárias às suas e expostas de forma clara e racional, não se vêem argumentos, e restam apenas os gritos, ofensas e agressões. Se eles não concordam com o que é dito, lá vêm as mãos erguidas para estrangular as idéias.

Passou da hora de repormos a ordem natural das coisas, de retirarmos dos jovens a falsa convicção de que eles estão sempre certos, sempre cobertos de razão pelo simples fato de serem... jovens! As crianças e adolescentes somente serão “o futuro da nação” se eles souberem que, para isso, precisarão antes envelhecer. E é nosso papel ensiná-las.

Como diz o filósofo: “um mundo que confia seu futuro ao discernimento dos jovens é um mundo velho e cansado, que já não tem futuro algum”.

* Fernando Henrique Leitão é advogado, professor e membro do Instituto Caminho da Liberdade – ICL-MT