02 de fevereiro de 2017 - 09:40

A modernidade abortada

Por Eduardo Mahon

Cuiabá é uma cidade antiga que sempre gostou da modernidade. No entanto, parece que a recíproca não é verdadeira – a modernidade não chegou totalmente à capital mato-grossense. Desde a fundação, no princípio do século XVIII, abriga o novo. No começo, a novidade era a própria descoberta do ouro substituindo a preação indígena. O pequeno povoado rapidamente encheu.

Quando o ouro desapareceu da superfície, tornou a esvaziar. Só sobraram casas de taipa com gente faminta. Lentamente, o aldeamento recuperou-se pela posição estratégica que permitiu Portugal interiorizar as conquistas e firma-las com vários tratados, dentre os quais o mais importante foi assinado em 1750, o Tratado de Madri, pelo qual as áreas comprovadamente ocupadas pelos portugueses seriam reconhecidas pela Coroa Espanhola. Nesse tempo, a novidade vinha de São Paulo, capitania da qual o recém-criado Mato Grosso foi desmembrado.

A navegação fluvial foi responsável pelo regular abastecimento de novidades. Chegavam amanhecidas, tardando na longa jornada entre o Rio de Janeiro e Cuiabá. Vinham tecidos e armarinhos, publicações de toda natureza, móveis, alguma prataria para as mesas mais fidalgas, entre outros sinais da modernidade tardia. Dessa forma, as notícias vinham com tanto atraso que a independência nacional e a proclamação da república demoraram meses para serem comemoradas em Cuiabá. Esse era o panorama do sertão brasileiro de modo geral. Já no Império, firmada a nova capital que havia sido transferida de Vila Bela, um grupo mais ou menos estável constituiu uma espécie de aristocracia, composta de famílias que resistiram às adversidades financeiras, aos tumultos políticos, às agruras de uma economia vacilante. Para essas poucas famílias tradicionais, não havia estudo, obrigando os cuiabanos procurar a graduação primeiro em Coimbra e, depois, em São Paulo e no Rio de Janeiro, então sede do Império e, depois, da República.

Os governantes que por aqui passaram quase não lançavam mão de obras de relevo, com poucas exceções. Uma delas foi João Carlos Augusto von Oyenhausen-Gravenburg, o Marquês de Aracati, responsável por preparar a fixação da capital mato-grossense em Cuiabá. Esse homem foi responsável pela fundação de instituições essenciais como hospitais, escolas técnicas, além do abastecimento de água ao centro urbano que sempre foi um problema. Depois de Oyenhausen, alguns outros são lembrados, como Augusto Leverger, o Barão de Melgaço e José Maria Alencastro.

Seguiu-se turbulência política tão acentuada que os governantes se sucediam do dia para a noite, incapazes de assegurar estabilidade suficiente para que Cuiabá pudesse se desenvolver. O primeiro curso superior em Mato Grosso veio depois do bicentenário de fundação da antiga Vila do Bom Jesus de Cuiabá. A Faculdade de Direito foi aberta e fechada várias vezes, mas lançou a semente do ensino que já estava consolidado em termos de educação média com os salesianos, a Escola Normal e o Liceu Cuiabano. As ideias que circulavam vinham de fora, por meio de franceses, italianos, alemães e dos estudantes que voltavam trazendo na mala publicações não tão vanguardistas.

Cuiabá cresceu à sombra da modernidade, portanto. O que vinha de fora era sempre bem recebido – o cinema, o piano, o bonde, o automóvel, os vestidos, os livros e as pessoas. No começo do século XX, a capital ganhou ares europeus, com passeios calçados, praças ajardinadas, enquanto a periferia ainda permanecia como zona rural quase inabitada. Antes e durante a traumática separação de Mato Grosso do Sul, Cuiabá corria contra o tempo, a fim de recuperar o que já fora moderno no eixo Rio-São Paulo. Demoliu casarões coloniais, alargou as ruas, desenhou edifícios com mais de sete andares, aposentou o bondinho, construiu a primeira piscina na casa do governador, substituiu a pequena matriz por outra imponente e o palácio do governo virou um monstrengo alto, tudo para, enfim, receber a modernidade que acabou chegando aos poucos, já cansada, superada, envelhecida. A prefeitura, por exemplo, é uma sombra do havia sido a vanguarda de Le Corbusier. Não tinha o mesmo frescor que o ministro Gustavo Capanema deu ao Rio de Janeiro ao contratar Lúcio Costa, Niemeyer, Reidy e Burle Marx.

Desde a década de 50, Cuiabá não sabe exatamente que rumo tomar. De vez em quando, parece que a modernidade vai se concentrar noutro canto da cidade, deixando o centro assumir a natural inclinação para o turismo histórico. Outras vezes, ainda observamos intervenção agressiva nos núcleos mais antigos, tentando modernizar e descaracterizar o que restou de colonial. A divisão política entre grupos conservadores e progressistas também acentuou essa descontinuidade da transformação urbana, abortando a sempre sonhada modernidade. Temos uma capital que chega ao tricentenário sem uma identidade definida, que sonha com o novo que nunca chega; que prega a conservação, mas é leniente com demolições; que opta por modais de transporte que demandam descaracterização. Penso que faria bem Cuiabá assumir a própria idade e dela tirar proveito. A capital precisa parar de correr atrás de uma modernidade abortada e olhar no espelho para enxergar beleza nas rugas que o tempo trouxe ao tecido urbano.

 

Assinatura Eduardo Mahon

 

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