05 de novembro de 2017 - 06:00

Ovo de Colombo da sucessão presidencial

Dizem que a História só se repete como farsa, todavia a sucessão de 2018 está parecida com a de 1989, se substituirmos Brizola e Lula por Lula e Bolsonaro

Deonísio da Silva

, da Redação

Divulgação/Pixabay

Ovo de Colombo em Sevilha

Estátua em Sevilha, na Espanha, representa o "Ovo de Colombo"

Em 1988, Collor ainda não era candidato a presidente da República, mas foi eleito no ano seguinte. Foi o primeiro ovo de Colombo na sucessão presidencial. O que ele fez, qualquer poderia fazer. Mas somente ele a fez. Atribuiu todos os males do Brasil ao então presidente José Sarney, tomou para bandeiras de sua campanha os temas que estavam na mídia e ofereceu-se como opção aos dois que lideravam a disputa: Brizola e Lula. Dizem que a História só se repete como farsa, todavia a sucessão do próximo ano está bem parecida com a de 1989, se substituirmos Brizola e Lula por Lula e Bolsonaro.

Mas por que ovo de Colombo, ovo da serpente e expressões assemelhadas que já começam a vir para o proscênio? É que o povo prefere ilustrar seus conceitos com verbos de ação. Baba-ovo (bajular), pisar em ovos (agir com cautela), contar com o ovo no fiofó da galinha (apostar em algo incerto) - eis algumas das numerosas expressões do Português que ilustram esta estratégia.

Algumas são muito antigas e remontam às nascentes da agricultura e da pecuária, quando o homem deixou de ser nômade e passou a conviver com os bichos, fossem ovelhas, vacas, porcos, aves, pássaros etc., não mais ao redor das tendas em que morava, mas no ambiente doméstico, palavra do mesmo étimo de domesticar, que é o que ele fez com os bichos, trazendo-os para perto de si e às vezes para dentro de casa, quando não para a própria cama em que dormia.

Ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago lembrou em seu discurso de posse que seus avós levavam pequenos porquinhos para dormir com eles: “Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável”. 

Foi de contextos como este que surgiram expressões que recorreram à agricultura e à pecuária, de que é exemplo também “pôr o carro diante dos bois”, acrescentada mais tarde, quando da antiga vida agropastoril restavam apenas lembranças.

Outra expressão muito lembrada é ovo da serpente, título de um filme do célebre cineasta sueco Ingmar Bergman, que viu indícios da acensão nazista na Europa, comparando-os ao que se pode entrever num ovo de serpente já fertilizado. Passou a designar um mal que já mostra seus primeiros sinais, ainda que tênues.

Temos também ovo cósmico, expressão criada pelo astrônomo belga Georges Lemaître, designando a matéria altamente compacta que teria possibilitado o grande estouro que criou tudo, o átomo primordial. Mas de todas elas, uma das expressões mais lembradas em que o ovo está presente é o que teria ocorrido com Cristóvão Colombo.

Num banquete organizado ainda no século XV pelo cardeal espanhol Pedro González de Mendoza para celebrar a descoberta da América, ao exemplificar que o glorioso feito poderia ter sido obra de qualquer outro, mas que apenas ele a fizera, Colombo tomou um ovo cozido e desafiou que um dos convivas pusesse aquele ovo em pé. Ninguém conseguiu. Ele, então, retomou o mesmo ovo, deu-lhe uma pequena batida e o fixou em pé sobre a mesa.

Um dos cortesãos retrucou: “Assim é fácil”. E Colombo concluiu: “O  mesmo ocorreu com a descoberta do Novo Mundo. Tudo que é natural parece fácil, após conhecido ou encontrado. A dificuldade está em ser o inventor, o primeiro a conhecer ou a demonstrar”.

Outros historiadores, porém, argumentam que o arquiteto e escultor italiano Filippo Bruneschini já tinha feito isto antes, ao demonstrar o invento da sustentação de um domo, e que o genovês, conhecendo a história, a repetira diante dos espanhóis.

Seja como for, a estratégia da demonstração foi atribuída a Colombo, assim passou à História e ilustra antigas antologias escolares que tinham o objetivo de instruir os alunos com textos de cultura geral. É provável que no próximo ano surja um ovo de Colombo na sucessão presidencial.

Assinatura Deonísio