04 de fevereiro de 2018 - 07:00

O Carnaval é festa de inclusão social

Durante três dias (que no Brasil são cinco), o rico e o pobre, patrões e empregados, feios e bonitos, todos comportam-se como se fossem iguais

Deonísio da Silva

Todas as sociedades sempre festejavam alguma coisa: a colheita, o nascimento de animais, os casamentos, o nascimento dos filhos, etc.

Os primeiros carnavais, ainda sem este nome, foram realizados entre os anos 600 e 520 a.C. na Grécia antiga, de onde foram trazidos para Roma e adaptados ou mesclados aos festejos pagãos.

Palavras como “sol”, “estrela”, “céu”, ”riqueza” e “felicidade” estão em canções de línguas muito antigas e, traduzidas ou adaptadas, chegaram aos sambas-enredos, depois de longas viagens, repletas de escalas em muitas nações, que tinham culturas diferenciadas e complexas formas de organização.

Nas duas culturas que mais influenciaram as culturas lusófonas, a grega e a latina, as festas carnavalescas davam destaque nas homenagens aos deuses da fertilidade e da produção.

Na Roma antiga, Saturno, deus da agricultura; Baco, deus das vinhas, do vinho, da sensualidade; Ceres, deusa das flores e dos trigais: o étimo de seu nome ainda hoje permanece na palavra cereal. E, entre outros, Príapo, deus da fertilidade humana, pois o falo, tal como representado em Príapo, era indispensável à procriação. Hoje, já tem sido dispensado em algumas gestações.

A coisa mais parecida com o atual Carnaval, na Roma antiga, eram as saturnais. Tribunais, escolas, fóruns e outras instituições públicas fechavam as portas. O povo dançava alegremente ao lado de um barco que desfilava sobre rodas pelas ruas, o carrus navalis, carro naval. Desfilar é sair da fila, destacar-se dentre os demais. Parece forçada a etimologia que dá o Italiano para carnevale (de carne levare, porque, depois das festas do Carnaval, vem a proibição de comer carne...)

A Igreja pôs-se a organizar todas as festas pagãs, no século IV, depois que o Cristianismo foi aceito como religião oficial, disciplinando-as e por vezes deslocando-as, de acordo com os interesses dos novos donos do poder, dali por diante associados ao poder imperial de Roma.

O Carnaval foi uma das festas deslocadas. Realizado entre 17 e 23 de Dezembro, veio a ter lugar à entrada da quaresma, separado da festa do deus Solis Invictus, o Sol Invicto, que por sua vez foi substituída pelo Natal.

Os festejos autorizados pela Santa Sé eram realizados à entrada da quaresma e em algumas culturas, como na luso-brasileira, tiveram originalmente a variante de entrudo, do latim introitus, entrada. Isto é, entrada da quaresma.

No primeiro Carnaval autorizado pelo Papa, proliferaram as alegorias, as comparações, as corridas de corcundas e de anões, os atos de jogar farinha e ovos uns nos outros etc., que perduraram por séculos! A sátira também teve seu lugar. Rainhas, princesas e outras autoridades eram representadas por célebres beldades, como as prostitutas mais conhecidas e devidamente disfarçadas no meio de mulheres virtuosas, sem excluir os bobos da corte, também misturados a outros bobos, tratados como reis nos desfiles.

O Brasil faz o maior carnaval do mundo, e o Carnaval do Rio de Janeiro é anunciado como o maior espetáculo da Terra. Vemos também algumas influências do carnaval italiano de Veneza, principalmente com os seus bailes de máscaras, que escondiam a identidade das pessoas, que assim podiam ser o que quisessem. Não podemos esquecer que pessoa veio do latim persona e quer dizer justamente máscara.

O Carnaval brasileiro deve muito à Família Real portuguesa que para cá partiu em 1807, chegando em 1808. O povo adorava a monarquia e nos desfiles homenageava tanto os deuses pagãos, incluindo o rei Momo, como rainhas e princesas, misturando-os a divindades de diversas culturas.

A grande marca do carnaval é a inclusão social. Só fica de fora quem quiser. Todos estão convidados a festejar. Durante três dias (que no Brasil são cinco, pois as festas vão de sexta a Quarta-feira de Cinzas), o rico e o pobre, patrões e empregados, feios e bonitos, todos comportam-se como se fossem iguais.

Os meses que antecedem o Carnaval são de dieta para milhares de pessoas. Inverte-se o preceito: a abstinência precede o Carnaval! As lipos também. Na Quarta-feira de Cinzas, volta a realidade, que somente será abolida no próximo Carnaval.

Se os leitores são ateus, agnósticos, católicos, cristãos de outros ramos ou religiosos de outros credos, isto não vem ao caso, pois só alguém sem cultura nenhuma deixaria de reconhecer que a civilização ocidental, para o bem ou para o mal, é herdeira de outras mais antigas, como a egípcia e a greco-romana, mas é principalmente judaico-cristã, e essas duas últimas estão presentes, explicita ou implicitamente, em usos, costumes, cerimônias, festejos, efemérides e, principalmente, nas palavras que proferimos ou calamos.

 

Deonísio da Silva, da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Brasileira de Filologia, é Doutor em Letras pela USP, professor e Diretor do Instituto da Palavra, na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. É autor de dezenas de livros, entre os quais De onde vêm as palavras e Avante, soldados: para trás (Prêmio Internacional Casa de las Américas). Na companhia do jornalista Ricardo Boechat, apresenta Sem Papas na Língua, na Rádio Bandnews Fluminense