18 de setembro de 2017 - 15:04

A seleção brasileira e o STF

A popularidade dos ministros do Supremo e o desconhecimento de quem são os companheiros de Neymar indicam que algo não vai bem no Brasil, seja no futebol, seja no Judiciário

Deonísio da Silva

, da Redação

Antigamente todos sabiam de cor a seleção brasileira. Agora poucos têm ideia de quem sejam os convocados, mas sabem o nome de cada juiz do STF.

Na linguagem de quando sabíamos de cor os nomes dos jogadores da seleção, o Brasil está em campo com Cármen Lúcia no gol, Alexandre de Moraes pela lateral direita, Dias Toffoli pela lateral esquerda. Os zagueiros são Luiz Fux pla direita e Ricardo Lewandowski pela esquerda, mas às vezes eles trocam de posição.

No meio de campo atuam três: Gilmar e os dois de Mello: Celso de Mello joga mais como volante, e Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello são meias-armadores. De vez em quando os dois são acusados de armar também alguma confusão.

No ataque, seguindo o sistema 4-3- 3, temos Edson Fachin de centroavante, Roberto Barroso pela meia-esquerda e Rosa Webber na ponta-esquerda, mas esta última recua para ajudar a defesa em momento de perigo, como fazia Zagalo antes de dobrar o ele do sobrenome e o Cabo da Boa Esperança, o que fez de uma tacada só.

Como se vê, não temos ponta-direita, a menos que adiantemos alguém do meio de campo.

A popularidade dos ministros do Supremo e o desconhecimento de quem são os companheiros de Neymar indicam que algo não vai bem no Brasil, seja no futebol, seja no Judiciário. Quando os brasileiros sabiam de cor a seleção, não sabiam o nome de um único juiz do Supremo Tribunal Federal, mais conhecido por STF e por Supremo, simplesmente.

O único juiz que eles conheciam era Armando Marques, de quem declinavam o nome completo de tanto os locutores esportivos anunciarem que quem ia apitar o jogo era Sua Senhoria Armando Nunes Castanheira da Rosa Marques. Muitos pensavam que Sua Senhoria eram dois dos tantos prenomes e nomes do juiz. E nem adiantava antes, como não adianta hoje, contrariar o povo e querer designar juiz por árbitro. Como xingar ladrão com uma proparoxítona?

Nossa língua prefere as paroxítonas. Não dizemos “cávalo”. Dizemos “caválo”, como se estivéssemos cansados e precisássemos, antes de assentar nossa decisão em ata, sentar no lombo do cavalo sem acentuá-lo.

Quando não há paroxítonas à mão, usamos oxítonas, como cafuné, jacaré, café. Mas só usamos proparoxítonas em caso de extrema necessidade, como cágado, por exemplo. Nada entendemos de quelônios. Somos pobres de vocabulário, mas somos limpinhos e preferimos a conversa clara, a única a garantir o trato justo.

Todavia de uns anos para cá os onze ministros do STF, sempre cheios de efes e erres e lotados de proparoxítonas para mandar algum político para o ergástulo, estão disputando todos os jogos de todas as séries. Alguns têm feito gols na banheira, em completo impedimento.

Outros têm evitado gols à base de chutes nas leis e caneladas nos réus, nos advogados, na jurisprudência, na hermenêutica, nos agravos, nos embargos infringentes, nas vistas do processo, no regimento etc.

E não apareceu ainda nenhum Arnaldo César Coelho para dar cartão vermelho ou pelo menos amarelo para alguns deles, uma vez que a regra é clara. Nem tampouco um Carlos Eugênio Simon, que vive explicando que a regra é obscura.

Quem convocou o time do STF? Foram seis técnicos, pouco mais de um juiz por técnico, segundo a média. Dilma convocou quatro, e Lula, três. Sarney, Collor, FHC e Temer convocaram um cada um. Precisamos voltar aos bons tempos, quando sabíamos de cor os nomes dos titulares e dos reservas da seleção brasileira e ignorávamos completamente quais eram os sábios jurisconsultos e procônsules do STF. Era santa aquela nossa ignorância.

Mas por que chegamos a tal situação? Tácito, historiador, orador e político da Roma Antiga resumiu em poucas palavras: “Corruptissima republica plurimae leges”, escreveu ele em Latim: “A república excessivamente corrupta precisa de muitas leis.”

O étimo de seu nome está nas palavras taciturno e tácito. Tácito é o que não precisa ser dito, é entendido sem que seja dito ou escrito, está implícito. E taciturno qualifica aquele que fala pouco ou está tomado pela tristeza. Precisamos voltar a saber a seleção de cor e a ignorar quem são os ministros do STF. Daí as tristezas, que não pagam dívidas, vão embora. E volta a alegria, que é a prova dos noves.

Assinatura Deonísio