13 de novembro de 2017 - 06:00

Surdez no ENEM

Meu primeiro ponto é que o tópico ficou muito restrito. Por que não falar de todas as deficiências? Para quê falar somente da minoria da minoria?

Débora Nunes

, da Redação

HC USP

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Sempre anseio por descobrir os temas de redação dos vestibulares. Com um filho que logo estará prestando o ENEM, estava curiosa para saber qual seria o tema deste ano.

Fiquei decepcionada, para dizer o mínimo.

Antes que você ache que sou insensível, politicamente incorreta e que deveria celebrar um assunto que é fácil ser discutido porque basta ter empatia, vou repetir o enunciado:

“Os desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”.

Havia quatro textos para ajudar os alunos a desenvolver seus argumentos.

Ainda assim, acredito que o tema vai além da esfera dos estudantes.

Aliás, adoraria fazer essa pergunta e pedir um texto para o ministro da Educação, por exemplo.

Depois de respondida pelo ministro, perguntaria para um coordenador pedagógico ou um professor, que lidam com tal situação, para elaborar uma dissertação sobre o assunto.

Agora, pedir para um estudante de 16, 17 anos discorrer sobre a inclusão dos surdos na escola é pedir demais.

Meu primeiro ponto é que o tópico ficou muito restrito. Por que não falar de todas as deficiências? Para quê falar somente da minoria da minoria?

Segundo, uma resposta simples acabaria com o tema. Como incluir surdos na educação do Brasil? Tendo professor especializado em Libras. E só.

Finalmente, se o tema fosse abrangente, alunos poderiam discorrer sobre como suas escolas lidam com a inclusão. Dando exemplos, pensando naquilo que veem em seu próprio universo.

De verdade, estou muito mais interessada em saber como esses jovens incluem pessoas com deficiência em seu círculo social e não em como debatem uma proposta educacional para eles.

Escrever sobre algo teórico pode ser fácil para quem tem capacidade de argumentação. Não quer dizer, necessariamente, que o jovem esteja pensando no outro. Pode estar apenas “falando bonito”.

Falar do problema do outro pode ser um início, mas ainda há muito a ser discutido com essa geração de jovens que têm ideias de extrema direita e que chamam Jair Bolsonaro de “Bolsomito”.

Que a nossa conversa seja sobre todo tipo de surdez. A literal e a figurada.

Assinatura Debora Nunes