21 de maio de 2017 - 10:29

Qual a sua máscara?

Débora Nunes

"Conheceram-me logo por quem não era, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara".

(Trecho do poema Tabacaria, de Fernando Pessoa)

Quando crianças, somos espontâneos. Não beijamos quem não gostamos, choramos logo que algo não vai bem, pedimos o colo da mãe se queremos carinho. Somos puro instinto, ímpeto, sinceridade.

Na adolescência, as coisas começam a complicar. Aprendemos a ser sociáveis mesmo com quem não gostamos, seguramos o choro para não passar vergonha na frente dos amigos e só procuramos colo quando estamos no limite. Vamos nos moldando à vida, aprendendo que não dá para ser impulsivo em tudo, que temos que agir não só com sinceridade, mas também inteligência.

Adultos, a coisa atinge outro nível. Já estamos calejados. Às vezes, por conta da vida ou da distância, lidamos mais com quem não temos afinidade do que com quem sentimos afeição. O choro quase nem sai mais. E pedir colo é algo do passado. Você não mais pede. Você dá colo para filhos, sobrinhos, amigos, colegas e agregados.

Endurecemos.

A carapaça é tamanha que nem sabemos mais quem éramos lá na infância. Quando você nem cogitava brincar com quem não gostava. Quando você se dava ao luxo de cair aos prantos quando estava frustrada. Quando você era você.

Estou sugerindo uma volta à infância? Em termos.

Não acho que devemos voltar aos nossos instintos mais primitivos (choro, berro, birra), mas à nossa essência. 

Quem você era antes da vida, dos compromissos te engolirem? Do que você gostava antes de ser obrigada a cumprir várias funções e papéis?

Você gostava de passar horas olhando para as nuvens, montando imagens e inventando histórias? Gostava de ficar só no meio de adultos para ouvir "causos" e tentar entender essa inebriante raça humana? Adorava dançar sem se importar com a opinião dos outros? Sonhava com um príncipe encantado? Dava tudo para ficar jogando conversa fora com as amigas?

Quem era você antes do mundo te consumir? Curiosa que sou, gostaria de saber qual era a sua essência antes de usar a máscara que a vida te obrigou a construir. Você me conta?

Assinatura Debora Nunes