23 de outubro de 2017 - 06:00

O terrorismo à moda brasileira

Vivemos num país onde é preciso andar de carro blindado para não sermos assaltados e ainda temos medo do terrorismo da Europa?

Débora Nunes

, da Redação

Divulgação/Pixabay

Terrorismo

“Eu não vou para a Europa nem de graça”, disse outro dia um conhecido enquanto conversávamos. Ele tentava me convencer de que eu era doida por querer voltar a viajar pelo Velho Mundo.

“Com o terrorismo de lá, prefiro ficar aqui”, emendou, certo de que falara a coisa mais sábia de sua vida.

Oi????

Em que Brasil você vive, cara pálida?

Você enlouqueceu?

E comecei a pensar.

Eu vivo num país onde é preciso andar de carro blindado para não sermos assaltados.

Vivo num país onde as pessoas moram em condomínios fechados ou atrás de muros gigantescos para não terem suas casas invadidas.

Moro num país onde a população da cidade mais linda do mundo, o Rio de Janeiro, está refém dos chefes do tráfico.

Vivo num país onde não sei se serei roubada pelo cara da esquina ou por aquele em quem votei na última eleição.

Moro num país onde crianças têm medo até de irem ao shopping porque a violência está lá também.

Vivo num país onde as pessoas vão à praia sem celular ou algum pertence valioso porque têm medo de arrastão.

Moro num país que, desde que me conheço por gente, vive uma guerra civil velada e você sai de casa sem saber se voltará vivo.

Por fim, vivo num país onde as pessoas ainda não entenderam que enfrentamos um tipo de terrorismo. Um terrorismo que é só nosso, é brasileiro. Nem sempre é organizado nem tem uma ideologia definida, mas é tão violento e sangrento quanto os grupos do exterior. Experimentamos, todos os dias, a sensação de medo de um ataque iminente ao parar em sinal ou ouvir um barulho estranho em casa.

Então, meu amigo, se isso não é semelhante ao pânico dos países onde o terrorismo tem nome, eu não sei dizer o que é.

E, sim, vou para Europa quando puder e sem medo algum. Afinal, moro no Brasil. E viver aqui não é para os fracos.

Assinatura Debora Nunes