04 de dezembro de 2017 - 07:20

Eu descobri Nora Ephron

Quando uma amiga me disse, em 2012, que tinha ficado "órfã" com a morte da escritora, achei exagero. Hoje também me sinto órfã

Débora Nunes

, da Redação

Lembro quando a Simone, uma amiga que mora nos Estados Unidos, enviou-me um e-mail dizendo: “A Nora Ephron morreu. Fiquei órfã”. Na época, em 2012, achei um exagero. Demorou alguns anos para a ficha cair. Finalmente, depois de conhecer um pouco da obra da norte-americana, posso dizer que entendo o que ela disse e sinto a mesma coisa: também me sinto órfã.

Mesmo quem não conheça seu trabalho como escritora, conhece seus filmes. Foi ela quem criou as comédias românticas que marcaram a minha geração, como Mensagem para Você, Harry e Sally – Feitos um para o outro e Sintonia do Amor. Sim, Nora era apaixonada, engraçada e com conteúdo. Tinha talento de sobra: foi jornalista, produtora, roteirista e diretora de cinema. Como disse em seu discurso às formandas da faculdade que frequentou, o Wellesley College, no estado de Massachusets, em 1996: “Não tenha medo, você sempre pode mudar de ideia. Eu sei: tive quatro profissões e três maridos. E isso era uma das coisas que não sabia quando estava aqui, há muitos anos: você não será você, fixa e imutável, para sempre”.

Nora me encantou porque encarava as dificuldades da vida, mas não perdia a piada. No momento mais difícil, quando descobriu a traição de seu segundo marido, o famoso jornalista Carl Bernstein, do Watergate, o que ela fez? Escreveu um livro, oras. No livro O amor é fogo, ela relata a sua história como se fosse Rachel e o marido, Mark. Poderia ter feito algo amargo e trágico, mas o leitor consegue dar boas risadas de suas observações. Como, por exemplo, quando retrata a amante do marido como “uma mulher alta, como o pescoço tão longo quanto um braço e o nariz muito maior que um dedão”. Sobra também para o ex-marido que, segundo Nora, “faria sexo até com uma persiana”.

No início da vida, atuou como jornalista. Chegou a escrever uma coluna no The New York Times na qual debatia questões da mídia. Tinha ideias polêmicas. Por exemplo quando opinou sobre uma foto que estampou manchetes de jornais, de uma mulher que pulou de uma casa em chamas, segundos antes da morte. Muitos acharam que era de mau gosto retratar uma pessoa nos momentos finais. Pois Nora pensava diferente: “Reconheço que colocar fotos de mortos trazem todos os tipos de questões como gosto, incômodo e sensacionalismo; mas a verdade, entretanto, é que as pessoas morrem. A morte é um dos grandes eventos da vida. E é irresponsável – ou mais do que isso, errado – para jornais evitarem de mostrá-la”.

Tinha ótimas sacadas para a velhice, como escreveu em seu famoso livro Meu pescoço é um horror: “Você pode colocar maquiagem no rosto e corretivo embaixo dos olhos, colorir o cabelo, aplicar injeções de colágeno, Botox ou Restylane nas suas rugas e pés de galinhas, mas se não fizer cirurgia, não há porcaria nenhuma que possa fazer no seu pescoço. Pescoços nos entregam. Nossos rostos mentem e os pescoços mostram a verdade”. Ou ainda quando dizia: “Há um motivo para os 40, 50 e 60 anos não pareceram o que eram antigamente, e não é por causa do feminismo ou uma vida saudável graças aos exercícios físicos. O segredo é a tintura do cabelo”.

Um simples artigo, como este, não faz jus ao trabalho de Nora, mas serve como um convite para conhecer sua obra literária ou cinematográfica. Nora era feminista, mas sem ser chata ou militante. Para mim, sua maior contribuição foi a de entender a mulher do nosso tempo e as transformações pelas quais passamos. Desde coisas tidas como superficiais, como o envelhecimento, até as questões mais práticas, como a mudança dos relacionamentos com a criação das mensagens eletrônicas, como retratou em Mensagem para Você. Para resumir, algo que ela escreveu: “Acima de tudo, seja a heroína de sua vida e não a vítima”.

Assinatura Debora Nunes