12 de julho de 2017 - 19:59

Mato Grosso precisa escutar o recado de Sérgio Moro

A sentença proferida nesta quarta-feira pelo juiz Sérgio Moro, que condenou Lula a 9 anos e meio de prisão, é uma advertência aos que insistem em duvidar das profundas mudanças ocorridas desde março de 2014, quando começou a Operação Lava Jato. Neste inverno de 2017, graças à maior ofensiva anticorrupção de todos os tempos, o Brasil da roubalheira institucionalizada agoniza na mesma UTI em que luta inutilmente pela sobrevivência o país do “sabe com quem está falando?”

O merecidíssimo castigo imposto a Lula confirma que está em trabalho de parto um Brasil obediente ao primeiro mandamento do Estado Democrático de Direito: todos são iguais perante a lei. Como ninguém é mais igual que os outros, não existem bandidos inimputáveis, mesmo que tenham ocupado por oito anos o gabinete presidencial. A tribo dos que se julgam condenados à perpétua impunidade caminha para a extinção. As lições embutidas na histórica sentença de Moro são claras. Até a primeira semana de julho, no entanto, não haviam sido assimiladas por todos os mato-grossenses.

Ainda não sabem que o Brasil ficou menos primitivo, por exemplo, os protagonistas de três episódios registrados em Mato Grosso em apenas sete dias. Em 1° de julho, o promotor de Justiça Fábio Camilo da Silva, inaugurou no município de Terra Nova do Norte um surto de estupidez autoritária que só terminaria 24 horas e três passagens por delegacias depois. As erupções de violência, que começaram com as agressões verbais a policiais militares que o haviam abordado por dirigir um veículo em estado de embriaguez, continuaram em Guarantã do Norte, onde se instalou em abril.

Pressionado pela repercussão dos vídeos e fotos que mostram o promotor comprando brigas com hóspedes de um hotel e depredando uma emissora de TV, vestindo apenas a cueca que tentou cobrir com uma toga ao perceber a aproximação dos homens da lei, o Conselho Superior do Ministério Público afastou Camilo de suas funções. No dia 4, o procurador-geral apareceu no palco das arruaças para desculpar-se com os policiais militares. Ninguém explicou por que um homem mentalmente desequilibrado pôde fantasiar-se de promotor por quase três meses.

Ganhou o selo de “episódio isolado” a delirante performance do delegado Sérgio Ribeiro, baseado em Sinop, num pedágio no município de Sorriso. Ocorrido em março, o caso veio à tona só neste 6 de julho, com a divulgação do vídeo que documentou parcialmente o desempenho do doutor. Colérico com a funcionária da concessionária Rota do Oeste que se atrevera a barrá-lo, Ribeiro tratou de ensinar-lhe o que acontece a quem desafia o xerife do lugar. As imagens mostram Ribeiro ora ameaçando a vilã com um revólver na mão, ora puxando a inimiga pelo braço para fora da cabine, ora discutindo com outro funcionário. A Corregedoria da Polícia Judiciária Civil de Mato Grosso informou que “foi instaurado um procedimento para apurar a conduta do delegado”, mas ressalvou que “não há conhecimento de que esse tipo de comportamento do delegado tenha ocorrido novamente”.

No dia 7, os pagadores de impostos descobriram o que fazem os deputados de Mato Grosso com o dinheiro reservado à área da cultura pelo governo estadual. Em vez de se ajoelharem no milho, pedirem desculpas aos eleitores e prometerem criar juízo, os parlamentares reincidiram no palavrório recomendado pelos manuais de corporativismo. Diferentes na forma, os três casos são idênticos no conteúdo. O promotor, o delegado e os deputados repetiram em coro a frase que sempre fez efeito no Brasil antigo: “Sabe com quem está falando?”.

Os brasileiros agora sabem, e não estão dispostos a aturar o atrevimento de gente obrigada a prestar serviços aos cidadãos que os sustentam financeiramente. A sentença de Moro reafirma que os poderosos patifes formam uma tribo a caminho do fim.