22 de março de 2017 - 18:55

A realidade muda com o tempo. A verdade, não

Aroldo Maciel

Todos os dias pela manhã entro na internet procurando por algo novo, novas ideias ou descobertas. Ainda ontem recebi um e-mail de uma pessoa que me perguntava se eu não me cansava de fazer coisas sem retorno financeiro. Acho que quando resolvi propor algo novo já imaginava o trabalho que daria provar uma teoria e ganhar dinheiro ao mesmo tempo. A resposta é bem simples: na história não existe ninguém que tenha proposto algo significante e tivesse tido tempo de aproveitar sua criação.

Sei como funciona e li muita coisa sobre pessoas que foram desrespeitadas e castradas intelectualmente para não dizer coisas "sem fundamento". Claro, no caso o "fundamento" é falar sobre algo que alguém intitulado nunca tenha escrito. Como sempre, inicio com uma pergunta: por que tenho a impressão de que alguns cientistas se comportam como padres da inquisição?

Na época do Renascimento Cultural e Científico (séculos XVI e XVII), a igreja católica ainda controlava a produção cultural e científica e defendia a teoria do Geocentrismo. Duas figuras importantes, o astrônomo Nicolau Copérnico (no século XVI) e, posteriormente, Galileu Galilei (no século XVII) trouxeram a público a teoria heliocêntrica. Galileu Galilei conseguiu provar a teoria graças às observações feitas com o uso do telescópio. Acabou renegado perante um tribunal com a pena de ser queimado vivo.

Imagine falar sobre qualquer coisa que não pudesse ser explicada pela ciência daquela época. Ah! É bruxaria mesmo. Exemplo clássico: o “átomo é uma unidade básica de matéria que consiste num núcleo central de carga elétrica positiva envolto por uma nuvem de elétrons de carga negativa. O núcleo atômico é composto por prótons e neutrons”. Este é o novo conceito, mas o grego que o batizou, o filósofo Demócrito (546 - 460 a.C.) deu esse nome depois de muito tempo de estudo, quando chegou à conclusão de que o átomo era indivisível. Já tem um tempinho que esse conceito de indivisível caiu. Foi a realidade para a época.

Durante muitos anos acompanhei histórias que tiveram seus fins muito felizes, e uma de minhas inspirações é a história do Peter. Nascido em Elswick, um distrito de Newcastle, Inglaterra, teve uma vida muito difícil. Seu pai trabalhava como engenheiro de som para a BBC, e devido a isso e futuramente pela II Guerra Mundial, ele, junto com a família, se mudava constantemente. Com isso Peter perdeu os anos iniciais da escola e foi ensinado em casa. Depois de muitos anos Peter propôs que uma partícula poderia assumir várias personalidades no “papel nuclear”. Peter foi discriminado por amigos e bombardeado por físicos de sua época. Quarenta anos depois, recebeu o Nobel por sua ideia maluca e extraordinária ao mesmo tempo. A “partícula de Deus”, como é conhecida, ou o bosón de Higgs, teve sua existência oficialmente anunciada pelo Centro Europeu de Física de Partículas (CERN) em 4 de julho de 2012.

O mecanismo de Higgs é tido como um ingrediente importante no modelo padrão de partículas físicas, sem a qual as partículas não teriam massa. Ele apenas teve um vislumbre, é claro, e para a ciência comprovar essa teoria gastou cerca de € 4,6 bilhões de euros. Sem contar a belíssima história dos australianos que foram massacrados por seus colegas médicos quando afirmaram que a gastrite poderia não ser uma doença crônica e sim causada por uma bactéria.

Os médicos Barry J. Marshall e J. Robin Warren ganharam o prêmio Nobel de Medicina por terem provado, apesar do ceticismo da comunidade científica, que as úlceras estomacais tinham origem bacteriana e poderiam ser tratadas com antibióticos.

Os trabalhos dos dois cientistas, iniciados em 1982 em Perth (oeste da Austrália), jogaram por terra os dogmas sobre estas doenças. Acho que o nome é dogma científico mesmo, e receio que a forma como o médico resolveu o problema foi digna. Tomou um tubo de ensaio lotado de helicobacter pylori e ficou muito doente por isso, mesmo assim acredito que as pessoas que os atacaram devem estar se sentindo mal até hoje. Ainda hoje, Marshall, de 54 anos, é pesquisador do Centro Médico QEII em Nedlans. Warren, de 68 anos, atualmente vive em Perth, onde trabalhou como patologista no Hospital Real até 1999.

Poderia contar aqui milhares de fatos como esses, onde anônimos, muitas vezes sem o devido apoio, confrontam a ciência e quebram paradigmas, construindo novos conceitos.

Acho que a grande diferença ainda é a crença. Acreditar em si antes de tudo. Questionar é o principal fator para evoluirmos. Eu continuo acreditando que as perguntas têm mais valor do que as respostas. Assim como a realidade muda, a verdade não muda. Existe sempre uma resposta diferente para a mesma pergunta.

Assinatura Coluna Aroldo